O outro projeto que venho acompanhando é o reencontro de Dado e Bonfá. Não, não é a volta da Legião Urbana, já que eles fazem questão de descartar qualquer possibilidade disso acontecer - e está dito e assinado em um comunicado que está no ar no site oficial da Legião.

Neste último fim-de-semana, pela primeira vez desde o último show da Legião, eles subiram a um palco brasileiro para tocar juntos. Isso tudo começou despretensiosamente naquele show do Uruguai, que ninguém deu muita atenção, mas sobre o qual repercutimos aqui no SOBREMUSICA. Na época, o próprio Dado nos deu uma entrevista em que ficava visível que alguma faísca tinha rolado por lá. Por um golpe do acaso, fazia um trabalho para a galera do Bajofondo durante a turnê deles aqui, quando eles resolveram convidar Dado e Bonfá para fazerem juntos “Índios” na apresentação carioca. Flagramos mais este momento. Apesar de estar envolvido com a criação do primeiro site oficial da Legião Urbana, eu não sabia que tal aparição aconteceria.

Eis que nos últimos tempos se configurou o desejo dos caras de repetir o encontro com músicos uruguaios e argentinos pelo Brasil, em algumas apresentações. Rapidamente passaram a dizer que seria a volta da Legião Urbana, coisa que até hoje nunca vi ser cogitada, muito pelo contrário. Tal ideia segue sendo sempre rechaçada pelos dois. Depois que o Porão do Rock confirmou que uma das noites desta edição seria só em homenagem ao rock de Brasília, iniciando as comemorações pelos 50 anos da cidade que se comemoram em 2010, parece que surgiu a oportunidade ideal para convidar a trupe do Uruguai para vir pra cá. Fui convidado a pensar o vídeo que deveria ser exibido antes dos caras subirem ao palco e cuja uma das finalidades seria justamente reafirmar que não haveria nenhuma volta da Legião Urbana. Nem na porta dos camarins dos músicos foi escrito isso. Junto com o sempre certeiro Bruno Tinoco, parceiro e editor de mão cheia, lá fui também para Brasília acompanhar tudo.

Diante da Esplanada dos Ministérios, a edição do Tinoco projetada no telão arrancou uma saraivadas de gritos, gemidos e comoção. Era, de fato, um vídeo emocionante. Ao final dele, sob a expressão “Força sempre” projetada nos telões, a banda entrou em cena com “Tempo perdido”, cantada por André Gonzales, do Móveis Coloniais de Acaju. Para reforçar a ideia de que não há volta, nem muito menos a chance de se colocar alguém no lugar de Renato, o centro do palco ficou vazio, com um spot de luz iluminando o microfone com a rosa branca. Outros vocalistas passaram por ali (Toni Platão, Sebastián Teysera, Juan Casanova, Herbert Vianna e Philippe Seabra). Ninguém cantou naquele lugar.

De resto, foi uma festa emocionante por também simbolizar a redenção de dois caras com parte de suas próprias carreiras. Musicalmente, era a Legião ali. Os mesmos instrumentos, as mesmas mãos, os mesmos pedais. Não era a Legião justamente porque faltava a voz, a presença, o humor e o carisma de Renato. Faltava muito para ser. Ainda assim, via-se na plateia o choro e a catarse a cada refrão. A ausência ao centro do palco reforçava tudo aquilo. Para quem que, como eu, nunca viu um show da Legião, foi algo particularmente forte.