O abre-alas Super Violão Mash Up já funciona como carta de intenções e bula. Pegue um Caymmi de beira-de-praia, um afro-samba de Baden-Powell, um esquema de Jorge Ben (e assim por diante com Gil, Tom Zé, Novos Baianos) e retalhe tudo até que seja só ritmo (um novo) e baile. Assim como tinha feito com o dub, em Three Sessions In a Greenhouse, com o funk em Parada de Lucas, e mesmo com o axé no já longínquo Eletro Ben Dodô, Lucas partiu da dança para ir até o osso e voltar para dança. Assim como Tom Zé dissecou o Samba e anos mais tarde a Bossa Nova, Lucas dá mais um passo em uma trajetória de estudos multidisciplinares sobre pilares incontestáveis de cada tempo. Ou, falando sério, desmancha repetições pra mostrar que inovar é que faz o mundo se mexer com graça e suingue.
      Pode chamar de reciclagem, de desconstrução, ou do que for. Será também um clichê de crítica, assim como existiram os clichês de dub, funk e axé. E há certos clichês que dão conforto também, pra não ficar numa de que é tudo assombração. Lucas não abre mão dos seus, aqui e ali. Mas ao bem da verdade, o que mais existe mesmo são os clichês de voz e violão. Para espanto do alienígena que der de desembarcar no Brasil do século XXI, isso aqui virou um país de saraus, de defensores da canção, de gente a fim de sentar e se abraçar a um instrumento e pronto. Daí a provocação ser ainda maior, a sacudida ser ainda mais certeira. Sem a pressa imposta da novidade, mas sem careta pra nada, Sem Nostalgia vem no ano seguinte ao da louvação a Chega de Saudade com marra de quem quer marcar época.
      Era o que faltava. Mesmo. Se a década é multimarcas, isso é só detalhe. O disco é todo em voz e violão, mas nada nele dá preguiça. Só, talvez, a cutucada anti-chateação de Amor em Jacumã, descoberta ali nas quebradas de Dom Um Romão. Mas aí é da boa, não dá para explicar, vai ouvir e descobrir. Nada no disco dá preguiça porque o violão não fica de casal ali deitado eternamente em berço esplêndido, nos braços do artista-compositor-intérprete-descobridor-do-brasil.
      Trata-se da emancipação do violão, que sai pra trabalhar, mostra que tem corpo pra muito mais nos batuques, mostra que fica mais interessante ao se dar com a tecnologia. Ela, que faz hoje ser hoje e não ontem, está nos mais diferentes microfones empregados (que tal um que reproduz uma cabeça pra captar o áudio como os ouvidos humanos o fariam, posicionado na madrugada do Jardim Botânico?), em pedais, em filtros e softwares ou MPC.
       Nem na solidão do tocador de violão que concentra os olhares na rodinha, Lucas se deixou levar. Se a geração é de colaboração e compartilhamento, é assim que vai ser. Se ainda tem gente que acha que hoje todo mundo se tranca no quarto fisgado pela tela de um computador, é hora de mostrar em que ponto estão as conexões. Cada faixa tem um time diferente de colaboradores contemporâneos produzindo pensamento junto, trazendo a bebida e o iPod pra festa ficar de todos. É um paulista Curumin e um carioca João Brasil. Um baiano em Nova Iorque Arto Lindsay e um outro entrincheirado Gil Monte. A mão de Chico Neves (claro, pense em O Dia Em Que Faremos Contato de Lenine e Lado B Lado A do Rappa e me diz se não tem tudo a ver, só que diferente) e a de Berna Ceppas. Uma banda com cheiro do amor. Os ecos de Buguinha, os loops de Rica, o produtor de Céu (Gustavo Benza), é só dizer. A rede tá armada, pega o cigarrinho de preferência e ouve só que você vai entender.

       Aliás, a referência a Tom Zé lá do primeiro parágrafo não é gratuita nem vai gerar ciúmes. Tá tudo em família.