O 2 em 1 é três no palco. É eletricidade na guitarra de Luisão Pereira, é atrito e ressonância (ou acústico, se você não entendeu) no cello de Fernanda Monteiro, e ainda é eletrônico no laptop de Gil Monte, produtor e articulador político-musical baiano. Os três mundos que já foram tão distantes rendem menos estranhamento hoje, é verdade, mas a banda mostra que há um mundo de possibilidades a ser explorado.
      A costura por cima das fronteiras de um e outro se dá pela doçura e calma da voz de Fernanda, que volta aos anos 90 para olhar para uma paisagem de barquinhos e banquinhos na janela de um apartamento ideal. Mais do que o alvo bossa nova, é no trip hop inglês que dá pra situar a voz da musicista (que o google aponta integrar a Orquestra Sinfônica da Bahia).
      Mas não basta a voz para que a costura fique firme. As músicas do 2 em 1 dependem muito do entrosamento de cada um dos mundos dos integrantes. E isso significa estar sincronizado para que as várias passagens de voz ou andamento não saiam sujas e acertar as dinâmicas, o volume de cada trecho tocado. É fundamental uma passagem de som bem amarrada antes do show começar.
      Na noite de sexta passada, na Sala Sidney Miller, no centro do Rio, o grande obstáculo para saber se o show é bom ou não foi justamente o técnico de P.A. O som da sala é muito bom, mas para uma banda como o 2 em 1, em que a calmaria é vizinha do barulho e cada detalhe tem importância, é preciso ter também alguém atento e ágil para acompanhar a apresentação. Som bom mas desajustado frustra. Não dá para ter o show interrompido duas vezes para trocar cabo de microfone, por exemplo, nem ver o áudio das programações eletrônicas precisar ser ajustado no próprio computados, na hora, na pressa.
      Em determinado momento, Luisão quase que negociou pelo microfone antes de apresentar uma música em que a batida era feita por loops gravados na hora se sons extraídos da guitarra. Foi um dos pontos altos da noite.
      A viagem proposta com as tais texturas eletrônica, elétrica e orgânica precisa fugir do som chapado. Pelo que se ouviu, deu pra achar simpático, mas ficou a dúvida do quanto é torcida e confiança na curadoria do festival, e do quanto os erros da casa atrapalharam o que seria o show planejado na cabeça dos dois mais um. Sábado tem mais, abrindo pro 3 na Massa, no Circo. Tomara que dê pra tirar a dúvida.