Todo mundo já falou do disco do Móveis Coloniais de Acaju, menos eu: de cara, dá pra sentir que o som mudou. A guitarra que antes era essencialmente rítmica, de levadas, assumiu a frente da banda. E as letras perderam o toque de humor absurdo, para virarem comentários sobre temas universais. Principalmente relacionamentos. Dois personagens são a cara deste novo disco, portanto: BC, o guitarrista que entrou no lugar de Leo Bursztyn (hoje Faroff) e o produtor Miranda.
       O primeiro disco do Móveis, Ídem, recebeu muitos elogios acompanhados da ressalva de que os metais não soavam como no show, que as músicas eram mais frias no disco. Desta vez, o acordo firmado entre banda e produtor (o mesmo do primeiro do Cansei de Ser Sexy) previu outro rumo, rock. A ideia foi concentrar o som em uma única referência, e cortar o que acabasse caindo pra ska, bálcã ou samba. De fato, o disco é muito menos diverso, embora nunca ninguém tivesse achado que faltasse identidade no primeiro, ou qualquer coisa assim.
       BC entrou na banda com a ingrata função de substituir Leo, que além de guitarrista e teórico da banda (não achei palavra melhor, mas era o cara que puxava o som para os cantos do mapa-múndi que a banda não deixou de explorar), ainda era o compositor da maioria do repertório. A troca foi ainda na turnê do Idem. Quando Leo não estava em Harvard, onde cursa uma pós de Economia, os dois inclusive dividiam palco. Com isso, BC até então era um guitarrista tocando músicas previamente arranjadas. É só agora que ele se torna efetivamente um elemento criador na banda. E isso está no centro da mudança.
       Se a proposta de C_mpl_te era se voltar para o rock, a guitarra foi o óbvio ponto de partida. O Móveis perdeu o medo de riffs, o naipe de sopros troca frases com a guitarra, e há muito mais momentos em que são os metais que fazem o tcheco-tcheco da marcação para uma frase de BC surgir em primeiro plano. Se Leo era um jogador de time, BC quer fazer gols, e não dá pra dizer que um seja melhor ou pior do que outro. Só há de se constatar que mudou muito.
       Os metais passaram de condutores dos arranjos para serem um elemento a mais na equação. Em boa parte do disco a principal delas, é verdade. Agora, a maluquice gostosa de vozes cruzadas que permitia projetar a bagunça da banda no palco sumiu. Talvez não caiba no rock do Miranda, talvez seja fácil chamar de maturidade musical do segundo disco, só não deve ser entendido como uma opção por definir que disco é disco e show é outra parada. Não é fazer um disco atrás de canção que prova que uma banda evoluiu.
       Se o Móveis é hoje uma banda maior do que era antes do lançamento do segundo disco, é porque manteve, mesmo que em outro esquema, a cara de mil cabeças. Isso está em Lista de Casamento, Descomplica e Café Com Leite (essa já definitivamente com a mão boa de BC). São a continuação do que vinha dando certo, com um novo toque que põe o escritório dos brasilienses lado a lado com o rock operário do Macaco Bong. As duas melhores bandas surgidas de 2000 pra cá no Brasil.

PS: Outra mudança foi na bateria, saiu Renato Rojas, entrou o boi-gerião Gabriel Coaracy. Mas o disco ainda foi todo gravado por Rojas.