Na mesma noite em que o Skatalites tocava no Rio em uma nova oportunidade perdida por mim de ver a banda de ex-alunos de convento inventar uma ilha no mapa da música, o TV On The Radio enfrentava uma chuva sem a menor graça em pleno Central Park de Nova Iorque. Ou seja, nem pensar em cantinho coberto. Nem pensar em hambúrguer seco pra enganar a fome.
       De capa e fazendo cara feia para quem ousasse abrir um guarda-chuva, apesar de ter aproveitado bem a carona no de um jornalista brasileiro que virou amigo ali debaixo d’água, só dava pra se pensar porque não começava logo, ora essa. Os ingressos estavam esgotados, quem chegou, chegou. Não foi assim. Agora, uma vez molhado, a hora era de relaxar.
       De cara, deu pra entender o poder da tempestade para uma banda sinestésica até no nome. Ou, se não o poder, o choque de pragmatismo. Ninguém ia ficar viajando com os pés, a cabeça e até a roupa íntima encharcada, então a banda partiu pra uma pegada funk que surpreendeu a expectativa de quem era estreante em apresentações deles (eu) ou de quem já era velho conhecido (o César, que faltou dizer: é morador). Love Dog deu a largada.

       O TVOTR não economizava em porrada nem em músicas do Dear Science, último disco. Em boa parte, a bateria parecia tirada de um disco da Motown, e o naipe de metais (sax tenor, barítono, trombone e trompete) rivalizava com as texturas de guitarra tão características. Parecia que Mark Ronson estava por ali. Era estranho para uma apresentação do TV…, mas era bem bom. Chapação, naquela situação, ia dar um frio da porra.

       Na medida em que o show avançava, aí sim, as programações e os pedais de efeito das guitarras iam retomando o espaço. Ainda assim, sem baixar o andamento. Os falsetos de Tunde Adebimpe não cansam de bater direto no centro do cérebro, como se líquidos entrassem escorrendo sem curva por ouvidos, nariz e boca. Agora sim, ouvia-se a influência rasgada de David Bowie.
      A sequência Red Dress, Shout Me Out, Dancing Choose e DLZ, todas do último disco, ganhava o próprio vocalista na frente do palco batucando um surdo que – óbvio – cheio d’água respingava pra todos os lados, refletindo luzes coloridas e parecendo por um breve instante que o show era do Cirque du Soleil ou do Stomp ou de um desses malabaristas de efeitos baratos e certeiros. No que depender de mim, deu certo: maneiríssimo.
       O bis ainda demoraria: puts, eles não perceberam que mesmo que a essa altura a chuva tivesse dado uma trégua, ainda assim estavam todos muito molhados? Mas quando voltou, tudo se esquentou de novo. Eram as músicas que a gente voltaria cantando pra casa, louco para arrebatar a noite com um banho quente – e um tanto de vinho no vizinho. Outra história, outra história.
      Se o Art Brut tinha mostrado como pode ser divertido o punk, mesmo que posudo e de boutique, o TV… foi onde a brincadeira é séria e mostrou que é uma banda de músicos mesmo, prontos para se adaptarem à ocasião e enfileirar referências sem nem que você se dê conta na hora. Aí, sim, banda de gente grande. De verdade.

      A abertura foi com o Dirty Projectors, que não me emocionou, ainda mais porque eles começaram bem na hora que a chuva apertou. Não houve a colaboração irrestrita que rolaria mais tarde na questão de abaixar os guarda-chuvas. Típica banda do Brooklyn, hippie com guitarra, mas vocal gritado demais. Seria um MGMT menos pra dançar, se é que essas descrições funcionam mesmo pra alguém.

As fotos não são minhas, mas de Natasha Ryan, que encontrei no flickr e acabei descobrindo contribuir para o recomendado brooklyn vegan.