O shuffle é do século passado, mas pulou da festinha sem dj para o dedo e a rotina das pessoas depois do ano da odisséia, 2001. Foi a revolução equivalente à do controle remoto para as medições de ibope na tv. Foi aí que acabou a solenidade de um álbum, que se vulgarizou a idéia de música da geração. Estava tudo no fim do século passado, só não estava suficientemente mastigado.
      Século passado, século XXI, o que há com essa busca de datas? A procura por uma identidade para quem só sabe o que está acontecendo instintivamente é eterna ou contemporânea? Há algo de fato especial em se jogar tudo nas costas da tecnologia? Ritmo talvez seja uma boa palavra para servir de ponto-de-partida. Para variar, assim como o homem nascido antes da revolução industrial se assustou com a paisagem passando na janela do trem, e assim como Caetano se assustou com tanta notícia em bancas de revista na hora em que batia o vento, está todo mundo sem tempo de alcançar os planos do dia-a-dia. É difícil acreditar em alguém que não deixou passar um filme no cinema, que conseguiu prestar atenção na reportagem inteira da televisão ou que esteja satisfeita com a mesa de cabeceira finalmente sem uma penca de livros empilhados.
      E olha que eu não falei de Internet e disco. Não dá pra saber se sempre foi assim, se Rubem Braga foi mesmo insólito ao deixar o mundo de lado para a crônica do passarinho na varanda, mas se uma geração não tem direito à falta de assunto, seja assunto excitado ou assunto angustiado, riso ou tédio, triunfo ou nostalgia, esses somos nós.
      Daí Dodô, daí Felipe Schuery. Daí =data crônica=, daí Alguma Coisinha. O século XXI pode ainda não ter regurgitado muita coisa (In Rainbows é ou não é uma unanimidade?), mas o chiclete do que se passou até a Internet fazer bum está na boca das pessoas. Som bom, é disso que eu to falando. Quadril ou bateção de cabeça: na dança o recado fica mais claro, seja ela de pista ou de trânsito casa-trabalho-amigos. Também se dança na frente do computador.
      Não há música de geração, qualquer mp3 novo que calhe de ser baixado e compartilhado serve. Tudo é da geração que nunca vai ler um manifesto, mas vai fazer parte da comunidade em quantas redes sociais forem precisas. O ouvido capta os fragmentos e os recombina. O cérebro-chiclete não separa o que é susto do que é diversão, e acha um ritmo para essa generalidade que pode ser chamada de informação, de entretenimento, de cópia digital.
      Pra quem não conhece, Dodô é um contador de histórias sem essa frescura de formatos. Tudo que é mídia é válido. Dá aula em escola, é dj, escreve livros, e já comandou um site colaborativo muito antes de alguém vir com o número 2.0. Em Alguma Coisinha, a história que ele conta é em forma de banda. Ex-baterista, o ritmo do disco é levado em samples necessariamente do século passado (faltou dizer que Pessoas Do Século Passado é uma marca própria dele, que batiza uma festa, um livro-disco, um site, um estilo de vida aberto e distraído).
      Felipe Schuery é o ex-vocalista do Lasciva Lula e comentarista de Caetano, agora exilado em Londres. Foi revisor de editoras aqui no Rio, colecionador de dicionários, e isso não passa batido em qualquer audição mais atenta de =data crônica=, um disco que não nega a banda Lasciva. O ritmo é dividido entre uma mão direita que dá palhetadas gritadas na guitarra, e a narração articulada além da conta.
      Os dois se conheceram – olha a data aí – na gravação de uma demo do Lasciva em 99, que seria lançada em 2000. O expediente de Dodô era em estúdio, na passagem do século. Felipe era estudante de Comunicação. Os dois dividem, cada um em seu trabalho auto-produzido e auto-gravado, uma ambição de acompanhar o andamento dos fatos. O computador é o centro do desejo comum de abraçar um cotidiano que não é televisionado, que o poder de escolher o interesse público não detecta.

      Não à toa, a música é a expressão do pensamento dos dois.


Amanhã, bate-papo com os dois.