Ouvir um novo disco do Titãs hoje, infelizmente, é estar preparado para o pior. A expectativa por invenção e nonsense veio caindo desde o lançamento do Acústico, no fim da década de 90. Arnaldo já estava fora, Marcelo morreu em seguida, e depois foi a vez de Nando sair. Ficaram cinco de oito originais, e a confusão de cabeças diferentes e afinadas perdeu espaço como trunfo número um da banda. Os lançamentos foram sendo batizados com a marca do descartável, ou no mínimo do passageiro: As Dez mais, A Melhor Banda De Todos os Tempos Da Última Semana, Como Estão Vocês? e agora Sacos Plásticos.
       Ouvir um novo disco do Titãs, portanto, não é ouvir o disco de uma banda qualquer, ou de uma estreante. E Sacos Plásticos tem a honra e o peso de vir na seqüência da sessão de nostalgia e gargalhada que é A Vida Até Parece Uma Festa, o documentário que perfila um percurso no pique da música que cede o verso do título, Diversão, um dos clássicos dos paulistas. Não há como não confrontar trajetória e momento presente, nem há como não cobrar do Titãs que o disco de agora seja um discão. Ora, fomos criados assim. Discões.
       Os dois parágrafos de introdução não são o que parecem: não são uma assoprada antes da mordida. Sacos Plásticos é muito melhor do que o que veio imediatamente antes (não contam os discos ao vivo), e tem altos e baixos. A faixa que batiza o álbum, Sacos Plásticos, mistura duas características tão legais da banda, o inusitado e o sotaque paulista, e fica só devendo contundência por trás da analogia irônica da letra. A volta da programação eletrônica que foi novidade no Brasil dos anos 80 também aparece bem, sem soar velho nem gratuito, na onda de rock quadrado para pista das bandas de capa da NME na Inglaterra. A brincadeira com a década do surgimento do BRock volta em outro dos altos do disco, Múmias, que – de novo – se não é a música definitiva dos Titãs de cinco, pelo menos está bem ao lado da história que quando eram oito. Agora Eu Vou Sonhar não tem sutileza para botar o famoso discurso de Martin Luther King ao fundo enquanto a letra enumera a superação e a esperança, nem estaria na lista de dez mais com tema Obama, mas a pretensão nem parece ser muito por aí. E Ela Não Acaba é legal aos ouvidos, igualmente. De modo geral, Branco Mello está cantando muito bem nas faixas que a ele cabem.
       Agora, ouvir Sacos Plásticos não é só contentamento. Porque Eu Sei Que É Amor e Deixa Eu Sangrar, duas baladinhas para tocar nas fms mais insossas, só não estão no topo da lista de baixos do disco porque existe Antes de Você, e a marca letal do produtor. Quando a banda decidiu entregar-se às mãos de Rick Bonadio, no estúdio Midas, o pior se anunciou. O orientador de Mamonas Assassinas e inventor de Dogão ultimamente tem feito uma grana com o hardcore de franja, e o Titãs assume o formato sem culpa nesta faixa. O refrão é de notas longas (nem tão agudas, verdade) e uma melodia paralela ao fundo que em tudo lembra Fresno, NXZero e equivalentes. Não à toa, a letra admite, basta querer entender: “não me lembro como eu era antes de você”. De nada adianta em seguida vir a melhor faixa do disco (a tal Sacos Plásticos do parágrafo anterior).
       Não custa lembrar que o disco começa com uma oração roqueira ao deus-dinheiro, daqueles rocks de rebeldia de condomínio. O Titãs, sem surpresa, assume a direção que quer para si, entre manequins prontos a serem vestidos com a roupa da nova estação. E ainda vem com versos óbvios como “problema todo mundo tem/ quem não tem problema?” (essa é da conta do Arnaldo, vejam só), “eu sei que é pra sempre enquanto durar” e “se eu queria uma resposta/ só encontro interrogação”.
       Se Sacos Plásticos fosse um disco de estreante, duas músicas como Múmias e a faixa-título seriam o suficiente para se dar atenção ao que a suposta banda teria a dizer mais adiante. Seria promissora par ao crítico generoso. Mas como o disco é do Titãs, aquele da nossa memória e do documentário que recentemente nos refrescou a lembrança, não dá pra aliviar muito. É uma nova decepção.

((Queiram desculpar a lentidão por aqui. Estou sem internet em casa, o que dificulta as coisas. Não esqueci que estou devendo um texto sobre o TV On The Radio no Central Park encharcado, e ainda vem mais…))