Um show de rock pode muito bem ser aproveitado como simples audição de uma trilha sonora para encontros e pensamentos, ou como uma tragédia grega, com protagonista e coro, e uma trajetória fadada a um destino inevitavelmente trágico. Essa dimensão pop/erudita da coisa é séria, tanto quanto for a disposição em absorver toda a carga de distorção e suor capaz de se concentrar sobre um palco. Em estado bruto.
       Uma longa história de mais de vinte anos me levou aos Estados Unidos, na semana passada. Boston e Nova Iorque. Na primeira cidade, apesar de intensa pesquisa com amigos e na Internet, acabei sem ver nenhum show. Foram duas outras longas histórias. Para não dizer que a cidade tenha sido uma perda total minha para a música, deu para visitar a Berklee, faculdade tão famosa e referência no jazz e na indústria.
       Em Nova Iorque, cheguei na quarta e depois de uma volta pela fronteira incerta entre Nolita e Chinatown (incluindo a exposição Younger Than Jesus, só de artistas com menos de 33 anos), dei de cara com o Mercury Lounge. Sem tanta surpresa, era um lugar bem menor do que a fantasia que eu tinha na cabeça. A semana inteira tinha o Art Brut em cartaz, e eu tinha acabado de achar programa para a noite de logo mais. Tinha. Ingressos esgotados. Por menor que fosse o Mercury, não fez muito sentido a informação de que a casa estaria lotada não só na quarta quanto na quinta, depois de uma segunda e de uma terça de shows. Não dava tudo isso para o Art Brut.
       Fui parar no Craiglist, um site de classificados em que a seção de ingressos bomba. Mandei um email com o celular americano disponível, e em cinco minutos eu tava saindo rumo ao Brooklyn, o lugar onde a garotada que faz o rock de Nova Iorque respirar (pense MGMT, TV On The Radio, Beirut) consegue pagar aluguel. Vale a pena a volta.
       “Em Manhattan, todo mundo se veste igual, é no Brooklyn que neguinho tá fazendo coisa”, me contaria um jornalista brasileiro há cinco anos em Nova Iorque, dois dias depois. Williamsburg é o nome do bairro preferido de quem faz essa tal nova cena. São muitas lojas de LPs e CDs (donde se conclui que tem quem compre, ao contrário de Manhattan onde as megalojas fecham), livrarias e bares – tantos quantos moleques de capuz. E um brechó atrás do outro. A comparação com a nossa Lapa não é possível – trata-se de um bairro 24h, e não de um que se transforma à noite. Claro, nossa Lapa tem muito mais diversidade.
       O show: pelo meio da plateia entram enfileirados os dois guitarristas (um posudo de gravata que poderia ser do Franz Ferdinand, outro de olho maquiado nervoso que poderia estar no Green Day), a baixista gordinha e o batera cabeludo que se apresenta em pé. O som começa para só então surgir, também entre o público, o vocalista Eddie Argos emulando um Morrissey acima do peso. Mas as referências nas letras estão mais para um pop imediato do estilo Joey. Se o Smiths convidasse o Ramones e tirasse o ovo da boca, seria o Art Brut.
       As guitarras são bem punks, mas têm solos e arranjos que nunca seriam executados por Johnny (não o Marr, o Ramone). As letras e a postura reforçam o que o rock levou anos para construir: uma mitologia que junta insatisfação com o emprego diurno, desejo inegociável de sucesso e reconhecimento, vivência de uma diversão extrema e rotineira sobre o palco, e a vontade eterna de conduzir a perda de controle coletiva. Pra resumir, o prazer do ego ligeiro enquanto se dança. Blitzkrieg Bop com Heaven Knows I’m Misearable Now. Metido a charmoso, metido a underground.
       O terceiro disco, Art Brut vs Satan, é o melhor deles – o que dá consistência ao que era mais tentativa e erro do que qualquer outra coisa. E está muito bem representado ao vivo. Ainda assim, é My Little Brother Just Discovered Rock n’ Roll – o primeiro hit - que interrompe o show antes do bis e faz todo mundo sair tarde (10 a 0 em Londres) pra casa com a consciência imediata de que viu o melhor show dos últimos tempos e a consciência profunda de que o dia seguinte será de administração do tédio. O espírito do rock ainda é aquele mesmo que engana enquanto contenta.
       Dali a dois dias seria o próximo da roda, o TV On the Radio. Que se empurre o destino para depois.