Fica cada vez mais claro o marco que é a Orquestra Imperial para a música carioca – com muito mais repercussão do que a tentativa de ajuntamento da MPC (Música Popular Carioca) lá no meio dos anos 90. E Max Sette é um dos herdeiros mais diretos da brincadeira/coletivo. Foi apresentado ao público por ela, no naipe de metais de Bidu Cordeiro, quando o trombone ganhou importância e o trompete substituiu uma preferência pelo sax na construção de melodias e contracantos.
      No disco O Que Se Passou, Max opta por aparecer mais como cantor do que como instrumentista, e ao fundo direciona toda a concepção artística de reobservar a gafieira a partir de hoje. O dado mais óbvio nessa escolha de estudo é a parceria com Wilson das Neves – justamente o bamba com quem a Orquestra Imperial mais de perto se relacionou.
      Antes de seguir, é importante dizer que O Que Se Passou vem depois de Parábolas Ao Vento, quando Max já tinha se aproximado dos bailes dançantes de um Rio antigo com uma malandragem curiosa e contemporânea. Pois a grande diferença do primeiro para o segundo disco é a troca da irresponsabilidade de antes pelo respeito de agora.
      Tratar o segundo disco de um artista como o momento da consolidação da carreira é uma coisa cada vez mais anacrônica, a importância do disco não é mais a que foi. Por isso, não é tão grave dizer que esse novo trabalho de Max está longe de ser uma prova de consistência artística. Não é. É algo mais interessante até de se acompanhar: um mergulho profundo em universo de luz escura, meio clandestino, onde as regras da pista botam ordem em uma gama de impulsos que misturam o da madame escondida do marido, o do lacaio vestido de rei do salão, o do malandro clássico e démodé e o do crooner que usa a mesma máscara para rir ou chorar. Um ambiente assim ainda cabe no século XXI, mas ainda se está no meio da argumentação.
      Max segue os passos mezzo tropicalistas mezzo bossa novistas da geração que trocou a brodagem de estrada da década anterior pela colaboração intensa como subsistência de agora para estudar a parte da história da música brasileira que mais o interessa sem ter definir claramente o que já não é observação, mas expressão própria. O disco se explica devagar, a cada nova volta no som, respeitoso às vezes demais, às vezes na medida. Não era assim no Parábolas, que era mais explícito na filiação à banda-baile de Amarante, Berna, Kassin, Nina Becker e Thalma de Freitas. O caminho de agora é outro, que promete ser mais longo também. Falta só que dê para sentir porque o disco não poderia ser assinado por das Neves. Divisão rítmica e cadência de vida noturna, Max tem. A hora é de sair da escola.