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       Uma das grandes mudanças do mundo de internets e coisas-e-tais é a nova e inevitável convivência com sotaques. Não dá pra fugir de um sotaque, seja lá qual for. Uma possível explicação seria que em mídias de massa predominantes anos atrás, a padronização era viável e economicamente interessante. Dava tempo de botar todos os elementos para seguir normas estabelecidas. Hoje, por maior que seja a empresa, há uma concorrente ágil nas decisões que tem um outro jeito de dizer a mesma coisa. A solução geral não é combater um r espichado ou um s chiado, mas incorporá-lo, sempre. Para o bem ou para o mal, a fluidez está batendo a rigidez, a novidade ganha as ruas antes dos testes de praxe, e a gente se livra de filtros. Os ouvidos estão espertos e não dá mais pra entender só o que soa como de costume. Vai-se com o que está na ponta da língua.
       Siba e a Fuloresta são antes de mais nada uma banda com sotaque. Portanto, antes que a aparência fale mais alto e leve em um raciocínio apressado a sons regionais, a conclusão certa é outra. Troque a pressa pela agilidade. Siba e banda têm sotaque, logo são artistas de um mundo século XXI, de uma lógica de internet e coisas-e-tais. De cara dá pra perceber isso. Na capa do disco ou no cenário, estão os magrelos amarelos de cabeça grande e olhos pequenos de grafite de Osgêmeos. Nos metais, frases rápidas que em outras bandas poderiam ser de baile black. Nos tambores, células rítmicas que repetidas incessantemente dispensam a necessidade de uma base de harmonia. Pode soar complicado, mas é coisa que está em rave e baile funk. A voz é o que guia a melodia, e a ginga dela é que vai guiar também a cadência, o groove. Moderno não é o contrário de tradicional.IMG_1157IMG_1085'
       O que significa que baile é baile, festa é festa, e não importa o sotaque. Siba de mestre-de-cerimônia sabia na noite de terça, no Rival, que embora a qualidade de som fosse muito melhor, não poderia repetir o calor que tinha causado na outra apresentação do disco Toda Vez Que Eu Dou um Passo/O Mundo Sai do Lugar, em Santa Teresa, na experiência doida e deliciosa da Embaixada de Pernambuco. Daquela vez, em uma sala apertada e quente, uma pequena multidão se aglomerava em pé enquanto pulava batendo ombro e bunda mais ou menos por ocasião e circunstância.
       Na noite de terça, o público estava sentado, e só uma fogueira em tanta mesa e cadeira podia abrir espaço para alguma coisa. Não foi de uma hora pra outra, nem foi tão ao pé da letra, mas umas duas ou três rodas de ciranda se abriram já na terceira parte do show, segundo a divisão enunciada pelo próprio Siba. Até ídolo de myspace e twitter deu as mãos pro sogro: rei!
       A primeira parte era o concerto – hora de ouvir o deboche do amor ao time na terceira divisão (pensa bem se não é uma temática universal que caberia em um disco solo do Noel Gallagher) ou a conquista do mundo com a batuta de maracatu em punho de Toda Vez Que Eu Dou Um Passo…, misto de número de cantador, maracatu, abre-alas e referência óbvia a Chico Science (um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar). Não à toa, Galego do Trombone emendava passos de folclore da Zona da Mata com outros de break de Bronx no início dos anos 80.IMG_1119'IMG_1143'
       Depois da participação de Jam da Silva, o pernambucano a quem se deve prestar atenção agora, começou o que Siba chamou de baile. Ficaram mais coniventes os namoros com marchas de carnaval, frevos, e tantas confusões quanto é possível quando se esquece o que é rural, urbano, centro, periferia e tantos outros conceitos que ficam pra trás na velocidade… de um passo.
       A terceira parte foi a invasão do espaço da escuta, quando o palco ficou vazio. Depois de uma e duas ameaças, Siba puxava o cortejo entre as mesas apertadas e as cadeiras já abandonadas. Aos poucos, entre rimas e ataques de metal e pele de tambor, a festa espalhava mobília e empilhava gente e obstáculos. Hora da fogueira. Era o mais perto que o teatro da Petrobras podia ficar da sala sem ventilação de Santa Teresa. Mais que aquilo, na terça, nem milagre.
       Aí alguém há de perguntar: mas misturar música e botar cadeira em cima da mesa não é uma coisa que rola até em sarau de banda cover em colégio? A resposta é: não, não com sotaque (uma das grandes mudanças do mundo de internets e coisas-e-tais, de que não dá pra fugir, seja l…).
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