Desde que voltei de uma viagem à Argentina, tenho gastado boa parte do tempo que dedico a ouvir música pra me debruçar sobre os (cerca de 30) cds que comprei por lá. A maioria corre sobre o rock argentino dos anos 80 até hoje. Discos de artistas sobre os quais eu sabia mais por ler do que por ouvir. Charly Garcia, Fito Paez, Soda Stereo, Los Fabulosos Cadillacs, Gustavo Cerati, Andres Calamaro, Spinetta, são alguns dos que concentram o meu foco por ora.

No início desta semana, cheguei ao momento Fito Paez da fila que se formou na beira do móvel onde guardo meus cds. Na hora de escolher por qual deles começaria, o trabalho recente com Os Paralamas influenciou e peguei o álbum “El Amor despues del Amor”, de 1992. A faixa título também batizava uma das canções mais famosas de Fito, para qual Herbert Vianna escreveu uma versão, lançada no ultimo disco dos Paralamas, “Brasil Afora”.

Admito que dessa turma toda, Fito era o que eu já conhecia um pouco mais e isso não foi à toa. Dessa leva de artistas, ele foi o que mais deu a cara pra bater aqui no Brasil, cansou de fazer shows e se esforçou bastante pra marcar seu lugar por aqui, apesar da nossa conhecida resistência à música portenha. Não conhecia, porém, esse famoso disco (só pelo nome), nem tampouco suas canções. Depois da primeira audição, o ouvido parou na sétima faixa e ela ficou tocando em repeat no som do carro por dois dias.

Eis que hoje, ao abrir o jornal, me deparo com o texto do Dapieve falando sobre Fito. Fiquei curioso, lógico. Não é normal espaço pra essa turma na imprensa brasileira. E não bastasse, Dapieve usava justamente a tal sétima faixa para mostrar a grandiosidade da obra de Fito Paez. “Un vestido y un amor”. Uma música linda, escandalosamente rasgada, visceral e exagerada, como muitas vezes só a música brega tem permissão pra ser no Brasil. Dapieve fazia uma leitura precisa disso e da própria música argentina. Algumas das questões tratadas por ele passeavam pela minha mente, com possibilidade de virarem texto qualquer dia. Porém Dapieve me redimiu da necessidade de fazê-lo e o fez com perfeição. A relação filtrada entre Beatles e o tango na obra de Fito Paez também é precisa e encontra eco nessa faixa. Quando o rock brasileiro tentou fazer algo semelhante, não teve tanto êxito. Vejo no primeiro álbum do Los Hermanos algo mais bem resolvido nesse sentido, de ser um texto que rasga o coração e uma música elaborada pela riqueza melódica do samba de Noel e as batidas pesadas do hardcore. O resto é banda emo.

Na Argentina, a tragédia lírica encontrou o choro do tango, enquanto aqui ela foi pro terreiro, sambou e viveu sempre um pouco ensolarada. Dapieve fala também sobre a sensação de que a Argentina não viveu momentos de rompimento estético tão acentuados (ou pelo menos tão alardeados) como os propostos pela Bossa Nova, Tropicália, etc. Não tenho informação suficiente para concordar ou não com isso, mas de fato as coisas parecem mais homogêneas e naturais numa loja de discos de Buenos Aires do que na seção que vende cds de uma livraria qualquer no Brasil. O ouvido dos taxistas também é mais flexivel do que aqui. As fronteiras criadas pela rotulação são muito influenciadas pela pretensão do eterno rompimento estético, como se o rompimento fosse um mérito por si só.

Essa “síndrome do rompimento estético” é a mesma que nos faz atribuir data de validade a muitos artistas. Na música argentina, Fito Paez e Charly Garcia são nomes que passam muito além do rótulo de roqueiros, até porque esses rótulos parecem interessar bem menos. Talvez isso esteja esclarecido quando Dapieve registra que “lá não se colocaram em termos de estilo versus emoção”. Na real essa é, na grande maioria dos casos, a dicotomia que cria a segmentação de estilos, gêneros, épocas, etc, tão incensadas por aqui. Não é raro encontrar pessoas que, ao tentar criar parâmetros de importância entre a música brasileira e argentina, se refira a Charly Garcia como o Roberto Carlos de lá. Estranho se você souber o tamanho da diferença que há, tanto em termos estéticos quanto de comportamento, na forma que os dois escolheram para seguir suas carreiras. Ou você imagina Roberto Carlos se jogando do nono andar na piscina de um hotel e saindo de lá como se nada estivesse acontecendo? Pois é… Mas quando se desconsidera a tal dicotomia, fica mais fácil entender tal comparação.

Quem chegou até aqui no texto, viu que se trata apenas de um brainstorm sem lide. Talvez o que quisesse dizer fosse apenas que “Un vestido y un amor” é uma canção dessas que ao ouvir pela primeira vez, já deu a sensação de que pode marcar um período da vida. Muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo e talvez ao lembrá-las no futuro o cérebro se encarregue de sonorizar com esta trilha. E também que o texto de Dapieve foi um regozijo. Daqueles que costumava sentir aos 16 anos, quando os ouvidos se enterneciam mais para músicas que eu ainda não conhecia e logo achava alguém escrevendo sobre elas e atribuindo palavras a muitas das coisas que eu pensava e não saberia expressar. Dapieve me deu essa sensação de volta hoje. Comecei o dia bem e com vontade de agradecê-lo.

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Fui então ao YouTube e encontrei isso aí embaixo. Fito cantando “Un vestido y un amor” sozinho ao piano durante uma premiação que lhe foi oferecida em 2006. Ao que se pode entender, pelo governo argentino e isso tem lá seu significado.

Depois de ter conhecido Buenos Aires, de ter ouvido “Un vestido y un amor” e de ter lido o texto de Dapieve, assistir essa apresentação, no Salão Branco da Casa Rosada, com o pavilhão argentino atrás de Fito Paez, é ainda mais intenso…