CéU se prepara para um novo disco e já bota pra jogo um EP pra sentir a recepção. O calor é intenso. Em quatro músicas, os graves jamaicanos e a psicodelia dos timbres do teclado são o adorno para a voz gostosa que vai de uma vogal limpa esticada até um ronco (ronronar?) pra bater chapado no peito. Com o devido coro feminino ao fundo, na melhor tradição Studio One de Kingston. A estética é a mesma de uma galera estabelecida em São Paulo que abarca de Guizado a Nação Zumbi, de Regis Damasceno e Rian Batista a Kamau, ou pra escolher um nome só, o Instituto. No Rio, seria o equivalente a Orquestra Imperial, que também gira em torno de produtores-músicos-agitadores (Tejo, Rica e Ganjaman para os paulistas, Berna e Kassin para os cariocas). Do mundo para as mesas de estúdios brasileiras.
      Aliás, o canto meio rasta tem muito de praias brasileiras: há uma doçura na voz de CéU que pertence a mesma família do canto aveludado de Caymmi, dos arranjos para trombone de Moacir Santos, da métrica aparentemente frouxa de Clementina, ou da falta de pressa de um Martinho clássico como o da regravação de Visgo da Jaca, música do disco Canta, Canta Minha Gente lá de 74, que a paulista já vinha cantando em shows fáceis de pescar no youtube.
      CéU capricha na manha para inspirar a imaginação: canta o cangote, a bubuia, o vagar, a cuia, o diabo, a cambaxirra e uma série de outras sensações neguinhas e indígenas pra reafirmar uma alma aberta e a fim de trocas, guiada pelo instinto e pelas certezas que vêm de dentro. A julgar pelas quatro faixas do EP, a vida vai ficar boa com o que sair de lá.