Apesar da tão falada ideia de transambas, que ameaçou até batizar o disco de Caetano, Zie e Zii é muito mais um disco de palhetadas em acordes (ou intervalos de notas) dissonantes na guitarra. A levada de Odeio (a única música de Cê que tem sido tocada nos shows) se multiplicou em novos arranjos e desenvolveu a onda de tensão e leve incômodo que já se ensaiava nos shows de Obra em Progresso. É o disco mais distante e oposto a Odara que só ele podia gravar: as músicas não são apenas escuras, são atormentadas. Daí até o mar da capa.
      Caetano se aproximou da turma talentosa do filho Moreno para também reavaliar a trajetória diante do hoje dele. Se a visão não é exatamente pessimista, longe disso, é pelo menos inquieta. Os títulos já dão a dica: incompatibilidade, perda, falsidade, Guantánamo (a parente de Haiti sedutoramente monótona). Sem Cais é a que tem menos dissonâncias nesta parte do disco.
      Porque, sim, há outra metade do disco. Pra não dizer que não há samba, há Ingenuidade, uma deliciosa provocação que a mim fala muito mais de Lapa do que a batizada com o nome do bairro. Trata-se de um sambinha tradicional em tudo, a não ser pela bateria branquela-cabeçuda, e pela letra que em nada casa com o que se ouve nos bailes de tantas bandas e artistas novos dispostos a cantar o auge da tradição. A dissonância não é da escala musical. Caetano usa a forma hoje da moda no Rio para falar de um relacionamento com uma menina mais nova, assunto para especulações infinitas e cruzamentos de informações tão caros ao momento-agora. Nada menos de raiz. Lapa e Falso Leblon só viram um retrato autoral do Rio do baiano com essa Ingenuidade no meio. Aliás, não só autoral como datado no fim da década de 2000.
      Mas eu queria ainda voltar pro começo do disco e falar da bateria de Incompatibilidade de Gênios, um dos momentos em que Callado mais brilha, e em que o groove esquisito e cdf do Do Amor mais se relaciona com o tio Tropicalismo. Muito se fala em influências de Wilco e Pixies, mas ali o que eu ouço é Birdie Nam Nam, um quarteto de DJs franceses que nem rock é. Perdeu também tem algo de Birdie. A bateria é torta, deslocada, exige uma atenção nem sempre amistosa. Ali, Caetano e banda marcam posição.
      Já as músicas de blogueiro - Lobão… e Lapa - são certamente as que não provocam impacto, o que leva a uma associação curiosa. Se Cê era um disco que escancarava a recente separação, e portanto solidão de Caetano, agora essa solidão (estou dando como certo que blogar é um ato solitário) é justamente um ponto fraco. Não mais de tesão, de distorção roquenrou, e sim de entrega a um circo-google, o de jogar com palavras-chave e disso criar sentido para novos textos, novos links. Facilitar buscas. Faz barulho, não sei se leva além.
      Em um aspecto algo novo rock brasileiro, Menina da Ria e A Cor Amarela são as com referência mais baiana. Poderiam ter a participação de Carlinhos Brown na boa, ou em uma segunda percussão ou em um segundo violão, como no caso dos Paralamas em Sem Mais Adeus (aquela do Alright…). Tudo cabe no espectro. E olha que engraçado, o baiano Caetano sendo reapresentado a faceta mais Meia Lua Inteira dele justamente pela turma talentosa do filho Moreno. É irônico, é contemporâneo, é até questionável, mas é muita onda. Da geração dele, Caetano é o que mais incorpora não só no discurso mas na obra o que está acontecendo - daí o mérito essencial de ser datado. E é o que está cantando melhor.
      Portanto, mais do que uma nova abordagem do samba, por uma via trans, Zii e Zie é um disco em que a afronta se dá por tentações. Formas, expectativas, desejos e até a roda do dia-a-dia da vida boêmia carioca são o alvo de um Caetano que insiste em se relacionar com os acontecimentos de uma cidade, sem abrir mão nem da própria trajetória nem da própria solidão da maturidade. A dissonância do agora é o manifesto para ser ouvido.