O disco começa com uma música levada no piano, com cordas aqui e ali, e o clima é de trilha de cinema independente, em momento de imersão, quando o roteiro vai dar uma virada. Aí vem a segunda música, com uma entrada na bateria, tecladinho, guitarra, e letra sobre a passagem do tempo. Demora até se entender a ironia do começo do disco de Nervoso, que é para se ouvir assim, como álbum, e perceber uma faixa fazendo sentido ao lado de outra, como num mosaico de cenas.
       A opção por começar devagarzinho a essa altura é marca: no hoje longínquo EP Personalidade, de 2003, era um sambinha de Nelson Gonçalves (A Visita, não à toa do mais punk dos sambistas) que desarmava quem podia esperar um trabalho pesado do baterista de tantas bandas com passagem pelo Garage. Depois foi o apelo abafado de Maus Limites, na abertura do Saudades de Minhas Lembranças do ano seguinte. Portanto, não é só começar devagarzinho, é tratar a primeira faixa do disco como uma apresentação para o novo trabalho, o primeiro assinado como banda – Nervoso e os Calmantes – o que está reforçado inclusive no nome do CD.
       E a mudança de percurso do(s) artista(s) é(são) apresentada(s) com serenidade. Este é um disco de consolidação, onde a saída da principal característica do disco anterior, a referência meio Jovem Guarda meio Los Hermanos, perdeu espaço para novas referências várias, sem afastar o que há de autoral nos dois trabalhos (três com o EP). A terceira faixa é uma salsa! O peito aberto das composições anteriores ainda está lá, mas menos angustiado ou inquieto. E a fim de dançar aqui e ali.
       O disco, sem dúvida, é muito mais de banda, a começar pelo espaço que The Alberto ganhou na obra. Há mais teclas hoje do que sempre, o que significa menos guitarras – embora o guitarrista Benjão tenha contribuído com três composições (antes de sair para se dedicar ao Do Amor). Ainda assim, não é possível dissociar que o centro da banda é Nervoso.
       Na própria faixa da ironia lá do primeiro parágrafo, Universo Vocacional, o embate entre ser poeta ou profissional, entre arte e mercado, é o tema. Tema que já tinha sido tão escancarado no Saudades, mas agora em nova abordagem. Kit-Homem, um hit em shows, tem um tom autobiográfico exagerado na melhor medida possível. Em Peça de Tabuleiro, as referências internas e cifradas ao Canastra, banda amiga, são boa parte da graça (junto com os violinos meio Pogues). Ou na homenagem a Fábio Junior – fase Pai – de O Grande Herói, sem clima de brincadeira ou de cultivar o brega por cultivar.
       Uma evolução no disco, agora, foi a possibilidade de gravar tudo em um mesmo estúdio, o Soma, que virou parceiro do projeto. Os timbres de instrumentos são muito mais trabalhados, com uma influência apontada nos anos 80 menos óbvios, e com momentos de pura brincadeira/experimentação de edição em estúdio. Isso é mais fácil de perceber em Uma Simples Questão, que tem coro infantil (os filhos da banda), kazu, risada e um epílogo (mesmo no meio do disco) só de modulações. Mas também está na regravação de Bloco Neguinho, que se mudou do Candeal da versão do Carne de Segunda para um bairro negro de Detroit onde os Calmantes foram fazer fumaça (ali nos arredores da Stax); e nas várias camadas de Despertar, cada uma de uma praia diferente (pense em Itapuã, Chicago e Acapulco), música feita para ouvir no fone.
       Ainda no capítulo arranjos, há cordas e sopros bem dosados. As cordas reforçam momentos de mais lirismo. E há sopros maneiríssimos em Minha Tranqüilidade, tanto nos naipes que dão a pegada da música, talvez a mais acelerada do disco, quanto no solo de sax escondido em segundo plano. Já em Teimosia, o trompete meio destoa da música, interrompe a trama – os riffs de guitarra soam mais no contexto do que o de metal.
       Se for para olhar pelo lado de que agora o disco é de banda, é mais variado ritmicamente e é menos guitarreiro, há uma tremenda mudança de Saudades de Minhas Lembranças para este Nervoso e os Calmantes. Se for para olhar pelo outro lado, está mantido um olhar coerente sobre o amadurecimento diante de idade, família e carreira, sem medo de mudar. Com a mesma voz descendente de Roberto Carlos, e a mesma falta de limites para um rock chiclete e ainda assim de se descobrir novidades a cada audição. Dois lados que fazem deste trabalho tão completo e bom de ouvir.