Macaco Bong e Móveis Coloniais de Acaju. Por falar em mundinho underground, duas das principais bandas deste universo em franca e organizada expansão mostram que a internet e a estrada não precisam ter a velocidade de um fenômeno. Com as mesmas ferramentas online, uma e outra banda montam um percurso autônomo, empreendedor e intimamente ligado ao domínio das etapas da cadeia produtiva da música. o Brasil está aprendendo que ser punk, no século XXI, é ter CNPJ (crédito para Fabrício Nobre, presidente da Abrafin). Mas essa é a parte chata do papo: o que vale ser destacado é que, tanto quanto é possível, o som do Móveis se aproxima do som do Macaco Bong - sem que um chegue perto de ser confundido com o do outro.
       O Macaco Bong não vai deixar de ser o power trio instrumental que vai do punk ao psicodélico ao clássico ao progressivo sem um pedal de efeito. Podia ser extremamente cabeçudo e aborrecido, mas é pop. E é aí que se aproxima o som do Móveis, formado por uma cabeçada de instrumentistas sem líder, que logicamente só podiam trazer uma porrada de referências. O ska e os sons dos Bálcãs que davam o rumo do primeiro disco estão ainda mais dissolvidos no segundo disco, C_mpl_te. Virou uma banda de rock, ousada e preocupada em ser pop nas mesmas medidas. Há algo de Beirut, ali, nem tanto em sonoridades, mas em postura e intenção. É algo festivo, é cheio de referências, e é rock. Assim como o Macaco.
      A formação de um circuito de festivais brasileiro, independente do eixo viciado de Rio-São Paulo (que nem eixo é mais, aliás), portanto, tem repercussões estéticas nos protagonistas deste circuito. Pegue também La Pupuña, Canastra, Do Amor, Vanguart, Pata de Elefante e umas poucas outras e há uma direção de referências atrás delas, sem que isso desvirtue a identidade de cada uma.
       O que falta a essas bandas do circuito Abrafin é o que talvez, lamentavelmente, não venha - pelo menos por agora. Falta sair do que ainda é gueto. Público pelo Brasil, e aí o Rio de Janeiro está fora, eles têm. O que eles não têm é a indústria para tomar de assalto e dominar, o que tem um lado rebelde bom, mas não deixa de ser uma angústia no campo da profissionalização. A maturidade vem mais de dificuldades de uma dimensão que ninguém sabe até onde espichar, do que em lidar com mídia, showbiz, grand monde, o carimbo de “estabelecido”. Os festivais têm bom público, falta consolidar um mesmo circuito de clubes pelo país. É um sucesso novo, que não é o que foi do Los Hermanos, não é o do povo hardcore MTV e não é o caminho do fenômeno Mallu. Por enquanto, dá pistas de ser sustentável. O público já aprendeu a correr atrás.