Caray, olha só o fim da primeira década do milênio chegando ao fim. Posts e novidades atropelam o tempo livre e isso nem merece mais ser pauta de lugar nenhum. Está dado. Ainda é cedo para fazer qualquer análise sobre o que se passa dentro e fora das nossas cabeças (aliás, ainda há limite entre um e outro?) depois que o bug do milênio não deu em nada, mas nunca é tarde para o palpite. Bem, esta série de textos, portanto, será só um emaranhado de palpites, fique à vontade para partir para outra se você não tá a fim disso. Serão chutes e associações livres, que no fim provavelmente não levarão a conclusão nenhuma.
       A ideia é discutir esses nossos tempos, uma suposta geração sapatênis, que não sai se define: nem é confortável o suficiente para praticar esporte, nem arrumado o bastante para ir para aquela festa careta. O nome não é meu, foi lido em algum momento, em algum lugar, em um texto que se perdeu na memória e search nenhum deu jeito de achar. Se o dono quiser se acusar, eu dou o crédito na boa. O raciocínio livre vai partir de uma única premissa, irresponsavelmente inspirada em Walter Benjamin: o fruir é o centro da nossa brincadeira, hoje. Um video fora de sinc campeão de acessos no youtube é um quebra-cabeças no filósofo alemão que escreveu A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, e isso pra gente é banal. O exagero de reprodutibilidade em cliques espalhados por aí tem um impacto forte sobre a forma como enxergamos o mundo. Que impacto é esse, a gente vai tentar adivinhar aqui.

       Vik Muniz e Radiohead. Onde está a aura no trabalho da banda com o melhor disco do milênio, aquele que poderia ser reproduzido oficialmente (ou baixado ilegalmente) a qualquer preço, sem embalagem, com dinheiro de plástico, e com o maior debate público sobre a essência da discussão de remuneração da criação artística? Essa pergunta é a mesma, em escalas nacionais, a entender onde está a aura de ir a um museu ver expostas as fotos de um artista brasileiro de impacto internacional que tem em uma mesma fórmula de variada aplicação a mesma obra que é artística e capa de discos/revistas? As frases são grandes, então cabe reorganizar: a fruição de ver pessoalmente a execução de uma música do Radiohead que já rodou tanto em mp3 e videoclipe é tão única quanto ver pessoalmente uma foto de Vik Muniz que já rodou tanto em jpegs e revistas, sites e discos?
       O show do Radiohead no Rio foi uma mistura de evento social e show da vida. Tinha gente cantando parabéns pra você alheio aos alienígenas de Oxford, o que eu pelo menos nunca tinha visto, e tinha também algo de muito mais impacto: um choro disperso de fãs diante da realização de uma longa expectativa. O acontecimento Radiohead se dava mesmo ali, na Apoteose de quem viu tantas vezes em telas de tv ou computador os experimentos audiovisuais de cada videoclipe, de quem ouviu tantas vezes em fones, caixinhas de plástico ou auto-falantes de festas fechadas cada questionamento sobre os parâmetros contemporâneos como rock, eletrônico, pop, consumismo, meio ambiente, celebridades, corporações ou internet. Ver ao vivo aquele show cujo setlists e os vídeos a gente já tinha visto e revisto era tão diferente da expectativa, e ainda assim não punha fim à ansiedade de quando um novo fruir daquele se repetiria, se repetirá. Não é exagero pensar o que outros já disseram por aí: a experiência de um show ao vivo, no Brasil, mudou de fase naquele momento. A tecnologia age na emoção, no século XXI, desde que aliada ao criar artístico.
       Vik Muniz, não. A exposição dele no Rio lotou, e confirmou o que um próprio texto apresentativo explicava no MAM: no Brasil, ele virou uma celebridade no momento em que as imagens dele foram associadas a revistas modernas e a artistas da música contemporâneos e populares. Engraçado isso acabar pesando mais do que os ícones mundiais que ele reproduz com poeira, diamantes, chocolate, ou seja lá o que for. Engraçado também o material de uma obra de artes plásticas ganhar tanto sentido, ao mesmo tempo em que a suspeita de photoshop paira meio a sério, meio de brincadeira. Real, montagem ou mancha? Sair da exposição procurando a lojinha que vendesse uma camiseta, caneca, poster é tão sintomático quanto o vazio de fruição depois de tantas fotos que a gente bem ou mal já tinha visto antes. Reprodução por reprodução, a tecnologia não age mais na emoção, no século XXI, quando o criar artístico é submetido à técnica. Agora, barulho faz.

Foto do Radiohead daqui, a montagem é minha, e a do Vik é do google.