O papo sobre o distanciamento da cena musical brasileira e mesmo da cultura brasileira como um todo, em relação aos nossos vizinhos sulamericanos é antigo. Sem forçar muito a memória (nem a pesquisa), houve algumas tentativas forçadas, mas importantes - sobretudo quando se fala de música -, de aproximação que passaram desde o bom festival Tordesilhas, realizado pela MTV no meio da década de 90, no auge da indústria fonográfica, até a apropriação da trilha em castelhando para o jovem Che, de Walter Salles, no cinema. Depois da premiação de Jorge Drexler, uma série de artistas nacionais viraram novamente seus olhos para o oeste e buscaram essa aproximação. Os principais parceiros foram justamente o uruguaio Drexler e o anglo-argentino Kevin Johansen. Drexler, aliás, pode ser lido com mais cuidado se percebemos o que aconteceu com a cena pop em seu país, simultaneamente ao seu sucesso internacional – ainda que sua responsabilidade sobre isso não seja necessariamente um fato.
Na última semana, passando pela primeira vez em Buenos Aires, algumas recordações sobre o que eu sempre imaginei sobre o rock argentino voltaram à tona. Já afastado no tempo da ânsiedade por conhecer discos que, apesar do citado auge da indústria fonográfica na década de 90, nunca eram lançados aqui, o olhar de hoje traçava paralelos inevitáveis entre o que temos como “cena” ou mesmo como consistência artística dos nossos artistas e o que se passa na vizinhança.
A primeira impressão que Buenos Aires me deu foi que as coisas podem e devem ser mais simples. Sobretudo em tempos como esses. Casas de médio porte de boa qualidade, como o La Trastienda, são vitais para todos respirarem ares novos. No meu caso, assisti um “musical”, uma experimental opera-cumbia (que se gabava de ser a primeira “opera-cumbia”!), contando a história da Argentina. Nada de Evita, nada de glamour fantasiado. A primeira reflexão passou em torno da facilidade que eles apresentavam em produzir algo que, por aqui, virou sinônimo de mega-produção, que são os musicais. Ali eram só os atores, uma (aparente) bom roteiro, dança, música, diversão e a história a se contar. De cenário, apenas um praticável que separava os principais personagens dos narradores e uma projeção simples, com cortes secos e poucas fusões, no telão atrás do palco.
Não lembrei de algo tão espontâneo e simples no gênero por aqui, sobretudo experimentando com ritmos “emergentes” (com muitas aspas em “emergentes”) como a cumbia. Volta o pensamento sobre política cultural do país como um todo e fica na cabeça um pensamento incômodo. Será que essa artificial sensação de alto profissionalismo que temos hoje na produção nacional é de todo benéfica? Não querendo pregar vida franciscana pra ninguém, mas será que não estamos de fato numa bolha, sem consistência? A renovação cada vez mais comprometida pelas ações de marketing com resultados objetivos e por orçamentos cada vez mais díspares com o retorno financeiro objetivo que a arte traz é algo bom? Será que ainda somos capazes de reconhecer talento e méritos em ações simples e diretas, ou isso ficará cada vez mais raro e servirá como as exceções que confirmam a regra? Ou mesmo ficaremos pregando que o novo vai vir pela internet, que só lá existe possibilidade de romper essa cada vez mais espessa camada que separa o novo do reconhecimento merecido? Na cabeça só me passava o Marcelo Adnet como algo de trajetória semelhante na recente cultura brasileira. Se você quiser forçar muito a barra (mas muito mesmo), dá pra colocar a Mallu Magalhães nisso aí… E que mais?
Fiquei pensando. Pensei em outras coisas também e esse raciocínio ainda vai se concluir nos próximos textos. Vou escrevendo aos poucos.
Conversa com o vocalista do El Mató A Un Policia Motorizado (ARG)
Costurando pra fora 1
Casuarina :: Turnê é a oportunidade de ir além da Lapa
Sobre rompimentos estéticos, tragédias, tangos, Dapieve e Fito Paez
Shows: Gogol Bordello e Super Furry Animals no Festival Indie Rock
Show: Blind Date, mais Raul Mourão e Leo Domingues no Casa Grande
Turnê tem 24 datas fechadas nos EUA
Coldplay lança álbum ao vivo de graça na web
© SOBREMUSICA 2005 - 2008
Reprodução permitida após consultaOs textos desta página nem sempre são revisados.
SOBREMUSICA | Reflexões porteñas 2
maio 22nd, 2009 at 19:26
[...] Desde que voltei de uma viagem à Argentina, tenho gastado boa parte do tempo que dedico a ouvir música pra me debruçar sobre os (cerca de 30) cds que comprei por lá. A maioria corre sobre o rock argentino dos anos 80 até hoje. Discos de artistas sobre os quais eu sabia mais por ler do que por ouvir. Charly Garcia, Fito Paez, Soda Stereo, Los Fabulosos Cadillacs, Gustavo Cerati, Andres Calamaro, Spinetta, são alguns dos que concentram o meu foco por ora. [...]
SOBREMUSICA | Entrevista: Santiago Barrionuevo
novembro 10th, 2009 at 19:53
[...] Em abril, quando estive na Argentina, perdi por pouco um show dos caras, mas encontrei uma bela matéria sobre o vocalista Santiago Barrionuevo na Rolling Stone de lá. Um espaço generoso que não se vê muito sendo dado a bandas de tamanho parecido aqui no Brasil. Achei o camarada curioso, gordinho, carismático. Vindos de La Plata, eles têm ainda mais dificuldades do que as bandas brasileiras de fora do eixo, até porque se aqui ainda há um eixo (que é cada vez maior), lá só há mesmo Buenos Aires. Ainda assim, eles estão ocupando bastante espaço no país e andando bem pela América do Sul. Aqui no Brasil, eles passaram recentemente pelos festivais Calango e Porão do Rock. [...]