Tô pra escrever de novo sobre a MTV faz tempo, e eis que surge a oportunidade. O canal foi eleito o veículo do ano pela Associação Brasileira de Propaganda. O prêmio será entregue em cerimônia no dia 6 de maio, mas não faltam justas comemorações em páginas inteiras compradas nos jornais de grande circulação.
      Há uns dois anos e meio, o diretor de lá, Zico Góes (acho que continua), foi à imprensa falar o que pensava: “apostar em clipe na tv é um atraso”. Era o anúncio de mudanças - nunca totalmente implantadas. Se a declaração bombástica era jogo de cena ou não, o fato é que os programas de auditório e o humor ganharam destaque na grade. A proposta era que MTV deixasse de ter música, porque em pleno alvorecer do youtube (fim de 2006, pensa bem) isso estava por fora.
      Na época, a gente aqui do sobremusica adorou o assunto, e começou a dar palpite, os meus em tom de lamentação. O tema já tinha sido pré-adiantado por mim, com um “o You Tube é a nova MTV“. Segui no assunto em seguida à declaração com um “Já tinha acabado, né?“. Sr Maia respondeu com um “Well… Not exactly“. Daí, eu: “As pessoas pensam, os consumidores reagem, o espírito não morre“. E Maia concluiu geral: “Alguém aí tá entendendo alguma coisa?“. Acho que vale repassar esse debate aberto aqui no site, um dos que eu mais gostei de ter, inclusive pelos comentários, pra seguir com a reflexão no tempo presente (os textos de cada link ainda não estão assinados propriamente porque eu e Bruno ainda não completamos a atualização dos posts antigos, de antes da migração pra fora do blogspot).

      Desde bem de manhã até umas quatro da tarde, são uns dois intervalos para programetes de 15 minutos. Daí, às quatro entram programas de variedades sustentados em grante parte no carisma dos VJs, até que às oito da noite, por uma hora, voltam os clipes. A MTV deixou de ser o canal da música como era há dezoito anos, o que afinal tinha mesmo que acontecer, mas não matou videoclipe nenhum. Como nenhum outro canal, a MTV assumiu a perda do protagonismo da televisão na vida das pessoas, ainda mais dos jovens. E se saiu bem.
      A grade de programação é feita para quem está no celular, conectado no computador, dividindo atenção com tantas janelas quanto possível. Aquela vinhetinha tradicional de “desligue a tv e vá ler um livro” deixou de ser uma provocação para se tornar a postura assumida. Não literalmente, a ideia não é deixar a tv apagada. Mas sem suicídio comercial, o telespectador é tratado como alguém que tem mais é que dividir a energia e a curiosidade entre tudo o que consegue. Pensar diferente, para a MTV, é quixotismo. O comportamento influenciado pela tecnologia foi absorvido, a convergência virou estética, e o máximo que a MTV te pede são quinze minutos de atenção para um Marcelo Adnet aqui, um Bento Ribeiro ali. Só vai mudar no fim da tarde, e horário nobre praticamente adentro.
      Uma crítica com alguma lógica seria dizer que a MTV tem baixo orçamento, e que os clipes emendados por horas na verdade completam espaços vazios da transmissão. Não acho que seja o caso, e os publicitários da ABP parecem estar comigo. Um clipe depois do outro faz o controle remoto descansar, ainda mais se o telespectador está com as mãos ocupadas em um teclado de computador ou de celular. Música em determinado momento da história se associou à imagem, e isso está mais para evoluir do que para voltar atrás. A audiência gosta de saber onde passam os clipes.
      Assumidamente de nicho, a estratégia tem se mostrado a melhor para o gigantesco desafio que é fazer televisão: falar com o fulano sem tirar o beltrano da conversa. Ou seja, no caso, ser interessante (ou fundamental) para o estudante do colégio sem deixar de ser pertinente para o cara de trinta que gosta de música (e consome o que os anunciantes têm a oferecer).
      É um bom momento, portanto.