Não consigo pensar em Caetano sem ser como um cara que entendeu o piloto automático do jornalismo. A habilidade dele para se tornar assunto nas horas convenientes, para sempre lançar trabalhos que sejam tratados como relevantes antes mesmo de serem avaliados, e de se manter pauta enquanto na estrada. Há muito passei da implicância adolescente de quem se cansa antes de assimilar: ou pelo menos antes de admitir que assimila.
      A implicância adolescente tinha e tem algo de admiração. Desconfio, logo confio. Logo me é de interesse. É assim que vejo o blog dele, o desdobramento elementar do show/dvd Obra em Progresso. Blog que aliás, hoje se despediu para o início dos trabalhos oficiais (tradicionais) de divulgação de Zii e Zie. Caetano é um bicho da contemporaneidade, só que a internet é um veículo secundário para ele - Caetano conseguiu ser seu próprio veículo, e tome notinhas de colunas, passeios pelas mais diferentes editorias do jornal, análise sobre eleição, país, Leblon. A internet é uma faixa-bônus, quase.
      Nunca li o blog de Caetano como um hábito, me parecia palavroso demais. Mas sempre que me deparei com um link, fui lá. A última vez foi para ler a entrevista com o Ricardo e o Marcelinho, baixista e baterista da bandaCê. Lá estando, li também a conversa com Pedro Sá, mais solta, mais ilustrativa.
      Não foi surpresa nenhuma ver lá que Caetano foi perfeito na definição de si próprio. “Eu sou quase um comentarista”. É isso mesmo. O conceito de transamba deste Zii e Zie que é lançado hoje é um comentário agudo, maturado e até testado em muitas relações criadas por Caetano com o tempo atual. Não se trata de um Jobim fazendo música pro jardim com Gershwin, Villa-Lobos e Debussy com a mente no universo. O movimento é de outro sentido, é de pegar o andamento do universo naquela época determinada e jogar pra uma esquina, pra um Leblon, pra uma calçada de Londres, pra uma caminhada contra a intempérie. Poucos discos de Caetano não são datados, e aqui não vai nenhuma cara feia - quer saber como foram os anos 70, 80 ou 90 e ele lhe cantará. Ser datado é ruim quando se é datado fora de época, o que nunca foi o caso aqui.
      Se Caetano não fosse músico, seria cineasta: cada plano tem uma densidade de pensamento que explicam uma visão de autor. Não há opções deflagradas entre melodia ou ritmo, entre textura ou letra. Sedução, mise-en-scène, perspectiva histórica, intimidade, tudo vira exatamente um comentário que interliga estética, política, sociedade, economia. Mídia. Caetano engole indignações de cartas de leitores e comenta a complexidade da opção noturna de Ronaldo, da votação de Gabeira para o Rio, a beleza de Obama, o Oscar da Índia, a saudade dos sotaques, a distância entre dois hermanos, o Radiohead que eu não sei se ele viu. (Vamos comer Caetano, Quero beijar Caetano, Adriana Calcanhotto, Lasciva Lula).
      Me perdoe o amigo Fred, que sabe muito mais do assunto do que eu, mas acho até que a Tropicália era mais é isso: um comentário geral. Uma ligação dissertativa entre ieieiê e brega, entre televisão e reza, entre Jornal do Brasil e vanguarda psicodélica europeia. O comentário de Caetano é notícia, olha aí uma contradição para a aulinha careta de jornalismo. Nem todo artista é um comentarista, talvez nem todo tropicalista o seja. Muito poucos comentaristas são artistas, pra pensar em uma associação previsível, Arnaldo Jabor não é. Mas Caetano se expressa por comentários sobre a sociedade, que hoje é de espetáculo, e isso acaba em arte. Provocativa, o que permite a reação da implicância, mas por isso mesmo extremamente consistente.
      Estou muito curioso para ouvir Zii e Zie.