Uma metrópole emergente e em crise de identidade, Mumbai, é o cenário perfeito para um conto de fadas sobre amor e dinheiro com cores puxadas digitalmente e batidão de pista no comando da edição. Na mão de um diretor, Danny Boyle, que tem no currículo Trainspotting, A Praia e Cova Rosa, a certeza é de que o confronto aos valores da classe média ocidental (o mote ‘Choose Life’ de Trainspotting é repetido em intenção em cada novo filme dele) será o subtema principal na tela. O resultado é quase isso.
      A essa altura do mundo, repetir que estilo é substância está velho. Forma é informação, notícia é opinião e design é conhecimento. Daí ir para a Índia globalizada é a chance perfeita de mostrar os choques assimilados de fruta com pimenta, de espírito com bit, de casta com celebridade, e de todos os contrastes que já não assustam ninguém quando lado a lado. Ainda mais se em Mumbai, a estranha e mística cidade do antigo país que surge como novidade na nova ordem mundial.
      A Índia é o lar de um dos maiores sistemas de produção de cinema do mundo, com uma linguagem própria e estereotipada aos olhos e lentes do ocidente. Qualquer pessoa menos distraída pensa em Bollywood, e mesmo que nunca tenha visto um filme indiano, tem na mente a imagem de uma coreografia de uns trinta figurantes enquanto uma voz oscila vogais parecidas com as daqui a golpes de nota grave. Um filme dirigido por um inglês lá, nesse contexto promete juntar uma coisa com a outra. Ou vira filme pra inglês ver.
      Para reforçar a proposta, toda uma série de atributos que os brasileiros aqui já viram antes: uma escalação de atores semi-profissionais mirins, uma história contada em saltos de idade nos personagens, dois garotos que tomam rumos distintos enquanto amadurecem (com uma menina no meio), uma favela como cenário e coadjuvante, e um anseio por modernidade. Quem Quer Ser… poderia ser praticamente uma sequência de Cidade de Deus, só que falada em inglês. E sem sociologia nenhuma.
      Só que em vez de Simonal, Tim Maia e outros nomes dos anos 70 do Brasil, entra a MIA dos anos 2000. A música em um e em outro está mais para jingle de filmete de intervalo do que para um clipe coreografado que sirva de metáfora ao que os bons costumes não permitem. Apesar do elemento MIA, e da cidade e dos rostos desconhecidos, e mesmo apesar da co-direção do indiano Loveleen Tandan, o filme passa batido por qualquer oportunidade de misturar temperos. Não é um mash up de um diretor com o outro.
      MIA (e o produtor Diplo) mixa(m) trechos de música crua de gueto com o que há de mais novo nas pistas do circuito Europa-EUA. Danny Boyle não, mantem a assinatura dele já conhecida e descobre que aquela favela filmada é pop. Pop de propaganda da BBC, não pop Bollywood. A favela de Mumbai, onde gente de verdade mora, essa ele corta e picota: mal dá pra ver.
      Aliás, “a favela é pop” é uma frase de Fernando Meirelles da época do lançamento de Cidade de Deus. Mas o filme brasileiro não é um conto de fadas, não é um diálogo entre autoridade e suspeito indefeso onde tudo se encaixa com uma tranquilidade cínica e inverossímel. Nem é ingênuo a ponto de acreditar no destino (embora no filme indiano, o amor romântico só se desenrole depois que o garoto já é um milionário, antes disso ele é só risos nervosos na sala do shopping). Quem Quer Ser…, no fim das contas, é o Mercedes depenado dos turistas americanos que em determinada cena o estacionam na beira do nada, enquanto o guia mirim mostra a “verdadeira Índia” que eles encomendaram por uns trocados.
      A Mumbai dos centros de teleatendimento, dos hotéis de luxo e dos rios coloridos de panos e roupas lavados de Danny Boyle não tem metade do mistério do interior da Índia de Wes Andreson, pra ficar no recente Viagem a Darjeeling. Pode ser porque Anderson dirige os filmes que roteiriza, e Boyle não. Mas acho que vai além disso.
      Entre A.R. Rahman, trilheiro já falado aqui no sobremusica, e o diretor de fotografia que alterna texturas de câmera de turista com câmeras mais profissas (imagens super tratadas), Anthony Dod Mantel, dá o gringo branquela fácil, fácil.
      Quem Quer Ser… não é um filme indiano, nem um filme que critique qualquer ordem estabelecida. Portanto, é um filme em que o contexto e as possibilidades prometem mais do que entregam - mesmo que se olhado só musicalmente. Ainda assim, fora a expectativa, é um bom divertimento.