Os Paralamas do Sucesso é a banda de rock brasileiro que mais exercitou linguagens estéticas desde o início de seus trabalhos, lá pelos idos de 1982. Não falo só pelo aspecto musical, mas também em outras áreas. De cara, já investiram na criação de um acervo fotográfico genial assinado por Mauricio Valladares, depois se aventuraram pela turma que criava a cara do videoclipe brasileiro nos anos 80 e 90 se oferecendo para diversas experiências – foram, inclusive, os primeiros a gravar um video para a MTV Brasil -, fizeram  shows conjuntos com bandas relevantes de gerações mais novas, como as turnês com Chico Science & Nação Zumbi e Los Hermanos, a adesão ao trabalho de artistas plásticos contemporâneos confiando a eles as capas de seus discos, a mais e por aí vai.

Em 1997, quando lançaram a caixa “Pólvora”, que trazia seus oito primeiros álbuns, Herbert falava que sentia estar cada vez mais bem resolvido no ofício de fazer “boas canções, bem acabadas e simples”. Com o passar dos anos, de alguma forma isso se cristalizou. Desafios como a inovação estética de “Selvagem?” (1986) ou “Severino”(1994) ficaram um pouco de lado em prol das canções. Em alguns momentos, elas apareciam mais inspiradas, em outros nem tanto. E o acidente de Herbert fez tudo entrar em xeque.

“Brasil Afora”, o novo disco que os caras estão lançando, é o melhor desde a retomada do grupo em 2002. Isso porque traz a melhor leva de “boas canções, bem acabadas e simples”. O álbum abre com um naipe de metais quente, que já enche de esperança no primeiro fraseado, uma coisa meio Vitória Régia. Em seguida, eles descem a letra de Meu sonho e mostram já de cara que vem pela frente mais um disco com a cara dos Paralamas. Desde que chegaram ao tal formato que Herbert se referiu há doze anos, a sonoridade pop-rock “madura” dos Paralamas passou a ser facilmente identificada e isso não é um demérito, mas sim o contrário. A capacidade de ainda soar radiofônico e popular, sem as concessões que alguns “roqueiros” costumam fazer ao tal “espírito do rock’n roll” e suas supostas exigências testosterônicas.

A produção em Salvador refez a ponte com Carlinhos Brown e trouxe duas faixas com “cara de Paralamas”. Sem mais adeus e Quanto ao tempo realmente cabem com justeza na voz de Herbert, mas não acrescentam tanto ao disco quanto o repertório próprio da banda. Após a música de abertura, além das faixas de Brown, aparecem “A lhe esperar”, o primeiro single, e “El Amor”, versão para um sucesso do amigo argentino Fito Paez. Ambas passam easy-listening. A ponte com a Argentina e a sonoridade do rock de lá – que é claramente diferente do rock feito em qualquer outro lugar do mundo, sobretudo nas melodias – revela um arranjo novo, mais sóbrio e sereno, justificando bem a sua presença ali. “A lhe esperar” é das músicas que menos se destaca em “Brasil Afora”, mas tem um momento lírico curioso, em que – como observa o release oficial, assinado por Felipe Machado – a poesia concretista de Arnaldo Antunes toma um rumo mais derretido, mais praieiro.

Mas passado esse início do disco, em que os parceiros ocupam o espaço autoral dOs Paralamas, na sexta música eles voltam com a fábrica de hits a todo vapor. A sequência Aposte em mim, Mormaço e Taubaté ou Santos é a veia afiadíssima das tais “boas canções, bem acabadas e simples”. Mormaço usa a singeleza lírica e uma diminuição nos volumes dos instrumentos para disfarçar um grande arranjo, que remete, sim, às épocas mais inspiradas do grupo. Uma mistura de modinha com repente, conduzida por notas de guitarra em stacatto, que dá um ar árido e sertanista e torna difícil o trabalho de qualquer um que tente atribuir gênero àquela sonoridade. A participação de Zé Ramalho não é em vão e funciona com destreza. A ideia, sugerida pelo nome do disco, de road movie, de estrada, fica mais evidente nessa letra que, em certo trecho, diz: “dá um laço e lança o sal/ passa ao largo em João Pessoa/ tece a vida por um fio/ desce ao Rio e fica à toa”, uma homenagem à Paraíba, terra natal de Herbert, e à sua ligação com o Rio. A música já nasce com cara de clássico. Ao ouvir Aposte em mim você tem a sensação de que já ouviu, uma daquelas baladas confiantes, aceleradas, otimistas, com cara de personagem jovem de novela da Globo. Uma sequência harmônica simples e direta, que você já ouviu outras tantas vezes na história do rock, mas com um frescor que Herbert ainda é um dos poucos a conseguir pintar com sua pena. Ambas, assim como Taubaté ou Santos, são daquelas que ficam em repeat na mente e que a letra pega pelo pé, sem recorrer às demências das rimas no infinitvo.

Na tríade final, os caras se unem em trio apenas pra acelerar o andamento e ligar as distorções. Brasil Afora, Tempero Zen e Tão bela serve para aproximar os fãs do playgroud paralâmico. É hora que os caras quebram tudo. Apenas em Tempero Zen se ouve a participação de outro músico, no caso João Fera e seus teclados. A música título do disco, tal qual Mormaço valoriza as sensações de estar a tanto tempo na estrada e apontam para uma nova percepção de Herbert sobre essa rotina: “não viver a causar pena/ por cuidar tanto das pernas/ conhecer uma pequena/ que me entregue o coração/ me dar conta que no mundo/ tanta gente vive assim/ ver sentido mais profundo/ no vão entre o não e o sim”. Além disso, a faixa serve de senha para a bela capa do chappa Raul Mourão -e  vamo combinar que essa também foi a melhor da leva dele como “artista plástico oficial” da banda -, valorizando a estética das artes e tipologias vistas em carrocerias de caminhões e cabarés dos grotões sulamericanos. Se as músicas finais não têm a riqueza melódica da tríade anterior, tem uma acidez lírica mais acentuada e um certo tesão underground que explica a ligação que aqueles três sujeitos têm.

O melhor disco desde a volta dOs Paralamas é feito para quem sabe o efeito que as canções dos caras têm sobre a mente e a memória. Comunicação direta, impacto nas mídias populares e afetividade disparada. Ou como Herbert falou, como Herbert avisou: “Boas canções, bem acabadas e simples”.

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crédito das fotos: Maurício Valladares (Divulgação) | crédito da arte do cd: André Lima, Rafael Alves e Raul Mourão (Tecnopop)