Sabe aquela turma de amigos carismáticos, que forma uma banda no colégio e, quando toca no sarau da escola todo mundo vai lá aplaudir, dar força e até cantar os trechos das músicas que já conseguiram aprender? Então, foi meio que essa a onda da apresentação do Little Joy. A diferença é aquela já sabida, que vem nos sobrenomes dos integrantes - Strokes e Los Hermanos - e a proporção que isso alcança. De resto, a vibe era a mesma. Amigos, confraternização, celebração, um clima amistoso e uma noite feita pra todo mundo voltar feliz para casa.

Little Joy :: “Shoulder to Shoulder

Ao vivo, o Little Joy é mais carisma do que uma banda afiada. Não que seja fraca musicalmente, muito pelo contrário. São bons músicos reunidos, mas sendo cri-cri, dá pra dizer que o grupo funciona melhor em estúdio. Porém, isso não diminui ou atrapalha a experiência de vê-los ao vivo, até porque em um show, a música é só mais um dos muitos elementos envolvidos. Nesses tempos em que esperar o lançamento de um disco tem mais a ver com vazamentos online do que propriamente com um gesto ativo de buscar pelo álbum, os shows cada vez mais completam a compreensão dos sentidos iniciada no mp3 player.

Já falamos aqui e acolá sobre a banda. O show, de certa forma, amplifica e consolida as impressões iniciais de quando se ouve o disco – não vou gastar seu tempo repetindo ideias, nem explorando novas e possíveis analogias com o trabalho dos Hermanos, que a toda hora passam pela mente.

Volto portanto ao (amplificado) sarau do colégio e suas simbologias. Não adianta: o show é da dupla de sobrenomes fortes. A presença de Amarante no centro geométrico do palco é a ponta de conexão que se estende pelo português amável e sorridente de Moretti, quando ele grita que está “de volta em casa”. Amarante é o garotão popular da turma. O cara é figura fácil da cena musical carioca e todo mundo conhece alguém que conhece ele, seja pela via Hermânica, seja pela via Orquestra Imperial. Moretti vai quase na mesma, mas fica mais no papel de o cara cool, gente-boa. Aliás, ele é internacionamente conhecido assim: um sujeito carismático e boa-praça, que muitas vezes rouba as pautas sobre o Strokes para si. Por um lado, ter se assumido “brasileiro e carioca” deve ter ajudado a angariar parte dessa simpatia que a visão exótica sobre o Brasil alimenta no exterior, por outro o faz ser visto como “um dos nossos” pela turma da cidade. O irmão dele e a família moram aqui e todo mundo já viu ou conhece alguém que viu o próprio Fabrizio tomando uma no Empório, em Ipanema. Ou seja, o Little Joy é um orgulho tremendo para o carioca, sempre tão vaidoso e egocêntrico, como turmas de colégio no segundo grau costumam ser. E ambos tem razão.

Binki Shapiro é a namorada atual do carinha da banda. Simpática, ela vai muito bem no papel de atriz coadjuvante. Compõe bem a cena e sabe que o papel principal não é e nem poderá ser dela, apesar da beleza e da voz pequena e suave. Também não briga com as meninas que gritam pelo seu gatinho, sempre tão atencioso e divertido. Ou “fofo”, como o Bernardo diz que as meninas dizem. A discrição da moça faz com que seu nome seja até gritado pelas meninas na hora em que ela vai a frente. Sua recompensa tá ali, no tamanho certo. Somado ao figurino “neo-hippie” dos (seguros) músicos de apoio Noah Georgeson e Todd Dahlhoff, a presença de Binki ajuda a evocar a imagem de Baby Consuelo em meio aos hippies dos Novos Baianos. Só o batera Matt Romano (também muito bom) é quem destoa no visual.

Little Joy :: “Unattainable

No sarauzão, quase nenhuma música é cantada em uníssono. Normalmente só alguns trechos ganham coro. Já o sorriso cúmplice não sai da cara de ninguém. O barato ali é apoiar os amigos, curtir a onda deles e descer junto nela de vez em quando. O show anunciado do Los Hermanos na abertura do Radiohead e a (ainda mais anunciada) volta dos Strokes aos ensaios para um novo álbum já indicam que a brincadeira (levada a sério) vai dar um tempo. Ninguém sabe onde aqueles amigos vão chegar com aquela história ali. Muitas bandas atingem o seu auge num sarau de colégio lotado e nem por isso o tempo as tornam menos históricas para quem curtiu.

 

As duas músicas finais, “Evaporar” e “Brand New Start” são as metáforas complementares dessa mesma história, evanescentes como os sábados de sarau na memória adolescente.

**************************
Mais do que recomendado o ótimo texto do Bernardo sobre o show. Um olhar pessoal, particular e generoso, do jeito que o SOBREMUSICA gosta.

Aliás, crédito de todas as fotos para o rapaz… Já os vídeos, tremidos, são meus mesmo…