Falando de rock brasileiro, a turma dos anos 80 foi a que chegou mais perto de exercitar os sentidos coletivos de criação. Seja pela trajetória de bandas, que não se apagaram mediante carreiras solos de seus membros, seja pelo próprio diálogo estético que havia entre elas. Uma estava no estúdio vendo a outra gravar, turnês juntas eram mais comuns, trocas coletivas que se sobrepunham às individuais que vemos por aí hoje em dia, nessa década em que os “projetos” substituiram às bandas. Nesse sentido, um grupo que desbravou o circuito Chacrinha-Bolinha-Hebe-Raul Gil com oito cabeças igualmente sedentas por criar e que atravessou 26 anos, é bem provável que tenha uma grande história para contar. É o caso dos Titãs.

E aí põe outros ingredientes na situação. O boom de câmeras filmadoras pessoais a partir do fim da década de 70 fez com que boa parte da cultura pop passasse a ser registrada mais de perto. Mais adiante, veio o fenômeno do Big Brother. Com ele, a necessidade de se filmar todo e qualquer instante tornou-se a ordem do dia, sobretudo quando envolve o processo e a criação artística. Com a chegada da transmissão rápida de videos online, finalmente se criou uma forma de desaguar todo esse material que envelhecia em prateleiras e caixas velhas. No caso da indústria da música, os “making of” e documentários passaram a ser importantes ítens comerciais. E com cada vez mais material assim circulando, as histórias mais fortes também reclamam mais notoriedade para si. A dos Titãs foi, então, para o cinema.

Dirigido por Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves (cuja parceria começou no ótimo videoclipe de “Epitáfio”/2002 e que já tinha um caráter de revisar a história humana daqueles caras), “Titãs – A vida até parece uma festa” leva o mesmo título de uma biografia já lançada sobre a trajetória da banda, mas passa mais diluído e divertido. O filme é uma boa montagem de um acervo genial, que só foi possível ser criado graças a tudo que falamos aí sobre as últimas décadas. Branco Mello registrou 26 anos em cerca de 300 horas de fitas dos mais diversos formatos e qualidades. Segundo consta na narrativa do filme, ele sempre disse aos companheiros que estava fazendo um documentário. Vá lá que talvez ninguém tenha acreditado que isso um dia ia virar o belo filme que virou.

Desde a cena em que a Toni Belloto e Branco Mello aparecem cantando, com uns 14, 15 anos, em um programa de televisão com a banda Mamão e as Mamonetes e sendo analisados por Wilson Simonal até o take final, onde eles paulistanamente cantam o tema de “A praça é nossa” no backstage de um show em Porto Alegre, 1989, o que se vê são quase duas horas de algo que Belloto define bem em certo momento, ao comentar a morte de Marcelo Frommer. Ter uma banda de rock é, de certa forma, esquecer que o tempo existe e se alimentar sempre de uma certa juventude, do sonho. E um sonho que dura 20 anos é bem bom.

A longa duração do filme chama atenção, mas não chega a pesar porque as imagens justificam tanto. Talvez a narrativa escolhida, que se compromete a mostrar todas as fases da banda, todos os discos, não fosse a melhor e, se alterada, poderia gerar mais pontos de corte. A linguagem MTV, de cortes rápidos e escolha de takes visualmente fortes e curtos, é usada com propriedade já que sai da própria mão de Oscar Rodrigues Alves e da turma da Academia de Filmes. A produtora de São Paulo criada e tocada por uma geração de diretores diretamente ligada à primeira fase da emissora no país é uma das mais representativas daquela geração. Uma turma paulistana que influenciou toda a linguagem de cinematografia e publicidade jovem de 1990 para cá. Só o uso excessivo de videoclipes é que vira um ponto que poderia ser diminuído. O charme do filme tá todo no material inédito, com todos os seus defeitos técnicos, sobretudo de áudio nas imagens mais antigas. Nesse sentido, dava pra deixar a MTV mais de lado, mesmo sendo ela uma das patrocinadoras do filme…

Mas sobreposta essas questões mais técnicas, o que fica é um filme para se questionar um pouco o que virou a música pop brasileira em tempos de politicamente correto. Chega a surpreender ouvir Silvio Santos dar espaço e até anunciar “Bichos escrotos” em seu programa de auditório “Qual é a música?”. A história de um grupo de cabeças pensantes, sem um band-leader, em meio a uma geração instigada por criar uma cara pra si é meio que contraponto a outra geração cujas trocas ficam muito mais no terreno do se linkar no myspace. Além do que não dá pra botar só no rabo das gravadoras quando pensamos que, se elas ditavam e impunham modas, elas também permetiam àqueles jovens querer dar uma voz à sua geração, uma cara a seu país. No limbo do processo de inclusão digital que o Brasil atravessa, tem uma turma – mais ou menos da minha idade – perdendo a chance de se tornar nacionalmente relevante por falta de canais eficientes para isso. Cabe a pergunta: para quê ter artistas nacionalmente relevantes se é bem melhor ter vários localmente fortes? Não sei responder, mas ainda me parece fazer falta bandas artisticamente mais pretensiosas e esforçadas. Sem céu, o teto do quarto é o limite. Hoje, no Brasil, parece tão difícil a arte alcançar as pessoas pelo rock, pela música pop, que também parece que se perdeu a vontade de buscar linguagens capazes de fazer isso. As trips artísticas, muitas vezes, se tornaram ou processos autistas, ou algo feito para nichos, ou, até pior, uma punheta aristocrática.

Além disso tudo aí, ainda resta a história humana dos caras. Todos são personagens igualmente divertidos. A intensidade e cumplicidade deles, mais do que óbvia, é tão intensa que chega a causar surpresa: sim, realmente os caras se amam e, por isso, fizeram uma carreira. Uma história de amizade. Atravessando auges, quedas, reveses e sucessos, o filme não contemporiza nem tanta exaltar a própria história dos envolvidos. Não há heróis nem dramas fáceis nos momentos mais difíceis que atravessaram, nem mesmo na morte de Marcelo Frommer. O esforço é por não ceder aos clichês da linguagem e o resultado é positivo. Uma história de pessoas.

É tanto uma história disso, uma história daquilo, que o filme se torna um monte de histórias em uma: a de uma banda de rock que, sabidamente, tem uma boa história. O filme se encarrega de deixá-la bem contada e vale a pena ver.