Foi mais ou menos em 1992, 1993 que o patriotismo cultural se tornou algo pop no Brasil. Depois de uma década de 80 marcada pela importação de referências e passado o pavor do plano Collor, ser brasileiro voltava a ser cool. E daí, foi aquilo né… cada cidade tinha que redescobrir suas raízes culturais, resgatá-las e tentar “modernizar o passado”. A moda pegou.
Logo depois, a paridade do real com o dólar, o sonho das viagens internacionais e da geléia importada na mesa da classe média, simultâneas ao primeiro boom da internet por aqui, começou a plantar a semente da projeção internacional e a vontade que a diluição de fronteiras virtuais pudesse também ser incorporada à cultura real. Na música, especificamente, o primeiro passo parece ter sido fazer os artistas brasileiros se espalharem por aí sob o viés esquisito da “world music”. Dali por diante, a progressão foi lenta, gradual e segura. Até que veio o Cansei de Ser Sexy.
Paralelo a isso, a política cultural do país, se não serviu para criar indústrias culturais autossustentáveis, funcionou para despertar o instinto da preservação da memória. O aumento do número de tombamentos, de projetos de recuperação de acervos e até de construção de novos museus, começou a causar efeito. A existência de um Museu do Futebol como o que foi criado em São Paulo é um sintoma disso. A proliferação dos Pontos de Cultura pelo país afora também entraram nessa conta da preservação cultural somada a modernização do olhar. Simultâneo a tudo isso, viu-se nesses últimos 15 anos – sem entrar em questões partidárias - o aumento da expectativa de vida, as melhoras (ainda pequenas) nos índices de escolaridade da população e o fortalecimento das estruturas democráticas e os primeiros sinais de um país em amadurecimento.
Uma frase anterior à minha existência, já anunciava que o brasileiro não respeita sua memória e não sabe preservá-la. Ousaria dizer que isso parece estar mudando a reboque desse processo todo. Essa nossa “criança” de 508 anos de idade parece começar a se entender um pouco mais junto com esse processo de amadurecimento. As pretensões que o país começa a apontar pra si e que lhe inseririam na alta cúpula das decisões globais são um sinal disso. É apenas o começo do fim do tal “complexo de vira-lata” rodriguiano.
Se nos anos 60 a urgência da situação também exigia uma arte urgente e imediata, que desse vazão aos pensamentos de uma geração e ainda, ao mesmo tempo, fosse estopim de uma série de contra-pensamentos, nesses tempos de agora, ela se comporta de outra forma. Menos coletiva, mais individualizada, tal qual as playlists dos mp3 players. Se nesses tempos a arte não dita (tanto) o rumo da humanidade, ela não deixou de ser espelho dela. Nem mesmo a música. Nem mesmo a música brasileira. Pode ser de modo inconsciente, mas ninguém escapa o peso de viver assim.

Os trabalhos solos dos hermanos Marcelo Camelo e de Rodrigo (Little Joy) Amarante reafirmaram o posto deles a frente da sua geração musical. O que se especulava na época do lançamento do “Ventura” (chegou-se a ler que a dupla era como se Chico Buarque e Caetano estivessem numa mesma banda em 1968), começa a se confirmar, guardada as devidas proporções. Numa época em que poucos novos nomes nos permitem imaginar uma carreira longeva na música brasileira, os dois não têm dificuldades para se tornarem faróis de seus contemporâneos. O que os une artisticamente - mais do que a família Los Hermanos – é, em primeiro lugar, a convicção na força da canção em seu formato clássico. Em segundo, o fato de serem brasileiros filhos desses tempos aí.
Camelo e Amarante fizeram discos que simbolizam muito bem essas duas vertentes, não só da música, mas da cultura brasileira contemporânea como um todo.
De um lado, o Brasil que mergulha em si, que ergue museus, recupera acervos, reescreve a própria memória. O Brasil que reafirma a canção praieira de Caymmi, recupera artistas “esquecidos” como a pianista Guiomar Novaes. O carioca que usa o violão de nylon para nos reconectar ao som harmônico primordial de nossos ouvidos. Do outro, um Brasil que não é brasileiro, que não é estrangeiro, que é de lugar nenhum, que é de nenhum-lugar, que se permite ser o que quiser, como se a nacionalidade fosse apenas um elemento circunstancial relativizado pelo interesse artístico momentâneo, sem contudo negá-la em instante algum. Um Brasil que olha o mundo e não se contenta com um papel terceiro-mundista, até porque já é um novo Brasil que cresceu conversando e trocando cultura via p2p, sem fronteiras. Um pedaço de futuro, talvez. Tomara.
E então, se é assim, qual o problema de fazer uma banda pop com um astro do rock internacional (nascido no Brasil, mas criado em NY) e, nela, ser o band leader cantando em inglês, ir morar na Califórnia e sair excursionando por Oklahoma, Sheffield, Colônia e Porto Alegre? E ainda por cima, fazer um disco foda que torna toda a dissertação antropológica banal. No fim, o que resta é a força da canção.
Camelo e Amarante provaram o quanto foi benéfico o recesso do Los Hermanos. Talvez só a partir dele é que eles poderiam seguir assim, tão próximos (ainda que aparentemente distantes) e complementares. No disco “Quatro”, presos sobre o mesmo teto, eles pareciam mais longe um do outro, incomodados e frios.

O álbum de Camelo é lindo, sobretudo quando acha as canções. Em outros momentos, há uma boa tentativa de dissociar a métrica harmônica da melódica. Nessas horas, ele tenta uma conversa com João Gilberto. Se o resultado não é lá tão genial quanto o do interlocutor, pelo menos a tentativa e o esforço já são um mérito. Por se valer de mais silêncios e ruídos, não é um álbum tão fácil de se ouvir direto, sem pular músicas, como o do Little Joy. “Janta”, a música pré-namoro, é um dos pontos altos do grande letrista que ele sempre mostrou ser. A parte em inglês é tão… tão… tão Mallu Magalhães, que te dá a certeza que se trata de uma composição em parceria. Mas não é. Foi escrita só por ele, como que se estivesse lendo a persona da menina que, até então ele pouco conhecia, mas já admirava. “Doce Solidão” é o release de seus ideais em carreira solo. Voar pra encontrar quem eventualmente se perca no caminho.
Nas participações do Hurtmold, a banda paulistana se coloca num ponto curioso em que mantém sua assinatura, mas também cai em alguns momentos (poucos, é verdade) nos clichês da sonoridade que os Hermanos criaram. A sensação que a presença do grupo causa é parecida com a que o disco sugere de uma forma geral, a de ser algo totalemente temporal, não-definitivo. Como a gravação das vozes captadas em um dia de praia, no fim de “Vida doce”. Em “Sou”, tudo é apenas momento. Tanto que os arranjos que se ouve nos shows já não são mais os mesmos dos que foram gravados. Tudo passa, diz uma outra canção do álbum e é de se imaginar que o Hurtmold também vai passar. Não parece que eles serão sempre a banda que acompanha Camelo. São apenas ótimos parceiros para esse trabalho. Camelo aponta para a ocasionalidade dos encontros e é por isso que aos paulistanos Hurtmold e Mallu Magalhães soma-se as mãos do pernambucano Dominguinhos e o piano suíço-brasileiro da paulistana Clara Sverner.
Quando, na faixa que abre o disco do Little Joy “The next time aroud”, a vocalista Binky Shapiro canta os versos “e aonde a sorte há de te levar/ saiba que o caminho é o fim, mais que chegar”, em um português difícil de entender, ela mostra que Amarante e Camelo seguem se complementando, de uma forma muito positiva para a cultura brasileira. Dois lados de um lado só. E dali, Camelo também lembra que “é de se entregar a sorte/ e todo mundo vai saber que o vai-e-vem pode ser eterno”.
Dois dos principais discos de 2008 e que retratam bem um momento (apenas) do caminho cultural brasileiro. Uma hora em que a pretensão de não ter restrições de assuntos, línguas e nacionalidade, se mistura com a própria conscientização e reafirmação de identidade. E se, para ser um só é preciso dividir-se em dois, que seja passageiro.
Acho que é.
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Um bom 2009 para todos nós.
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janeiro 9th, 2009 at 17:27
parabéns pelo texto, bruno! acompanhei os hermanos desde o início, cresci junto com eles, sempre admirei demais o trabalho do camelo e do rodrigo, e estou muito feliz com os trabalhos recentes dos dois. Seu texto foi uma excelente forma de compreender melhor essa passagem das coisas e de “juntar os pontos” dessa história. bjs!
janeiro 9th, 2009 at 18:12
Pra mim, nesse mar de textos que aparecem no meu Google Reader, é raro dizer que um texto é lindo, mas esse foi, lindo mesmo! Parabéns!
janeiro 11th, 2009 at 3:36
Strokes parece que volta em fevereiro. LH em março?
janeiro 12th, 2009 at 13:05
Muito é pouco!
Parabéns!
janeiro 12th, 2009 at 13:46
Encontrei o link na comunidade do Rodrigo Amarante, achei magnifico o seu ponto de vista, maravilhosa a organização das palavras. Fico feliz em me deparar com textos desse nível!
Parabéns!
BRUNO NOGUEIRA (PE): SOBRE A VOLTA MAIS ESPERADA » DoSol
janeiro 13th, 2009 at 7:35
[...] Não por acaso, em março o Little Joy entra em recesso e, até então, a justificativa principal era que o Fabrizio Moretti voltaria dos shows no Brasil direto para Nova York, onde entra em estúdio com os Strokes para outra volta tão aguardada. Enquanto nada se confirma, outro Bruno, o MalaMaia, teoriza a importância dos dois pilares do Los Hermanos no desenho de nossa cultura pop contemporânea. Tudo lá no Sobremusica. [...]
janeiro 13th, 2009 at 20:51
…não é meu costume parar para falar(?) depois de ler textos pela rede a fora, mas seu texto parece que impõe um registro.
Não que seu texto peça isso, mas eu me senti - ainda não sei porque - obrigado a falar do quão importante é esse texto para pessoas que gostem de música, do Brasil, do Los Hermanos ou de pensar.
“se tornarem faróis de seus contemporâneos”
Seu texto é um farol, ele espalha luz sobre um terreno antes nublado.
Muito Obrigado - não pela atenção - Pelas suas palavras.
janeiro 15th, 2009 at 8:44
Só vim dizer que gostei demais desse texto.
janeiro 15th, 2009 at 10:14
daporra!
janeiro 18th, 2009 at 17:40
Maravilhoso texto Mr. Maia!!
janeiro 28th, 2009 at 14:18
muito bom, bruno. gostei pra caralho da forma original que vc achou pra falar dos vôos solo dos former-hermanos. E isso tudo usando a nova norma gramatical! Legal e autossustentável!
janeiro 30th, 2009 at 13:39
Parabéns pelo texto e pelo site! Li na página do Senhor F. Daí, vim visitar essa página e me deparei com a feliz noticia de Bonfá tocando com o Dado.
Abraços!
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fevereiro 9th, 2009 at 16:19
[...] falamos aqui e acolá sobre a banda. O show, de certa forma, amplifica e consolida as impressões iniciais de quando se [...]
SOBREMUSICA | A volta da principal banda da década
fevereiro 16th, 2009 at 11:33
[...] Ao fim dos trabalhos de “First Impressions”, o que era só uma opção de Albert Hammond Jr virou desejo de todos os integrantes e cada um lançou seus próprios trabalhos.A grande surpresa veio por conta do vigor que todos demonstravam, em caminhos criativos que deixavam claro os pontos em comum dos membros do Strokes e ainda davam margem à piracões ofuscadas pelo formato ao qual haviam se prendido. Albert Hammond Jr lançou seu segundo disco. Nick Valensi lançou o Nickel Eye. O baixista Nikolai Fraiture lançou A Kind of Dream, um filme mudo, em preto e branco, dirigido por Danny Velez, e com música dele. O vocalista Julian Casablancas fez uma participação no disco do camarada Albert e ainda gravou “My drive through” com Santogold e Pharrel. Sobre o trabalho de Fabrizio Moretti com o Little Joy a gente já nem precisa mais falar, né… [...]