2009 é um ano que começa em crise, e isso significa sempre fazer reavaliações sobre o ritmo, a vida, as oportunidades. Qualquer projeto, a começar pelos profissionais, vira uma dúvida que depende de tantas forças maiores do que a iniciativa, o suor, o talento e a ralação de uma pessoa só, a fim de empreender. O mundo sufoca, e o que faz respirar está em falta. É o sonho. Está difícil sonhar. A psicanálise saiu de moda, foi substituída por iogas e recompensas ao corpo. Em crise, o lógico é o pragmatismo.
      Essa crise, como outras, nasce em seguida a um momento de prosperidade. Os Estados Unidos dão o tom da estabilidade e puxam o mundo, mas as certezas dos bancos, dos planos e do que o neoliberalismo se permitiu chamar de sonho (uma casa nova, um carro) estavam sobre bolhas. Seguro assim.
      Engraçado pensar dessa forma, e olhar para o Little Joy, banda do ex-compositor do Los Hermanos, Amarante, e do baterista em férias do Strokes, Moretti. O Little Joy é a atual realidade de dois artistas acostumados com a fama, o sucesso. Com bolhas, afinal de contas. E é simples e ambicioso.
      Pensar assim só reforça a compreensão da mensagem que a banda (ou projeto?) imprime ao se aproximar do mar e da praia, ao por lado a lado na hierarquia a voz, a batida do violão e a bateria. Um leva o outro. Se pretender perto de uma crítica de música, nessas horas, é difícil: o disco busca influências e ritmos no pop de eras passadas, mas não é retrô, nem saudosista. Que mistério faz isso acontecer? O mesmo mistério que está em Amy Winehouse (mas aí dá pra disfarçar e jogar no produtor, Mark Ronson), mas não em mil bandas que querem os anos 80, que nem estão tão longe, e não chegam aqui hoje agora. Mesmo que sejam bem recebidos em internets, jornais e festivais.
      Os compositores decidiram se entregar à busca da canção - recriam o folk com sufixos como anti-, freak-, neo-, tentam achar outras formas ou siglas para MPB, e citam Caymmi, Chico, Cartola, Noel sem necessariamente soar como. Falam em chanteuses, pesquisam américas espanholas, se reúnem em saraus. Fecham o olho, escolhem uma década, e vão atrás. A procura pela melodia atrás de um violão é tão contemporânea e tão revisionista quanto é a do ritmo perfeito - o passo à frente não virá de uma fórmula. Me arrisco a dizer: virá de uma expectativa maior.
      E aí está a armadilha, o grande obstáculo. Somos uma geração de pequenas expectativas. A vida ensinou como verdade única que tudo se regula por uma mão invisível, que sozinho se vence e colhe louros, que a competição por si faz uns serem mais fortes e mais recompensados. Em um ritmo cada vez maior, cada decisão de dia-a-dia se resumiu até hoje a aceitar ou negar a regra do jogo. E fuga ou aceitação são, afinal, parecidas demais nos extremos.
      Pensa bem: uma mão invisível no controle (mercado, quem é mercado?), a segurança sustentada em uma bolha. Alguma coisa devia estar errada. Mas a opção nunca pareceu boa o suficiente. Até que uma crise maior do que a do roteiro faz tremer o chão. E aí?
      Se tinha dinheiro na bolsa, perdeu. Se tinha crediário aberto, perdeu. Se tava pra ganhar carteira assinada, perdeu. Se o projeto tava pronto, esperando o próximo edital… Se a empresa grande tiver que cortar em algum lugar, perdeu. Se ia comprar lá fora uma muamba baratinha, perdeu. Se o Brasil ia crescer 6% por dois anos seguidos, perdeu. E se EUA, União Européia, Rússia, Japão iam crescer…
      Tanta coisa junto assombra, daí a importância de pequenas alegrias. Inverter expectativas, fazer música para os outros - não importa se são os parceiros de banda ou a platéia. A hora é de propor novas leituras, velocidades diferentes, paisagens recoloridas: pode não parecer, mas ver isso dar certo é uma expectativa forte. Não é simplesmente se voltar pra fora, é ir buscar lá dentro o que há a se oferecer para fora, e isso amplia muito o percurso. É muito difícil inovar, taí um sonho.
      Pode ser que o ano tenha tido discos melhores, músicas que tenham pegado mais na veia, timbres mais diferentes, misturas sobrepostas ou liquidificadas em laboratórios mais imponentes. Mas a troca de espaços, a voz imperfeita, a possibilidade de ir para qualquer lado, a desimportância de fronteiras, a proximidade, a bateria que nunca sobra, e - principalmente - a prosposta aberta de mudança de humor do álbum do Little Joy são o que marca mais forte essa virada de ano 2008-2009. E ainda tem a Binki Shapiro, que permite o encontro com outros confortos.
      Dito isto, feliz 2009.