Pois preenchendo os dias de descanso que se seguem à minha maratona particular de perfis para o Humaitá Pra Peixe deste ano (maratona encerrada 24 horas atrás, mais ou menos exatamente), aqui vai um dos textos pra outra costura pra fora que ando fazendo, o Duelo de MCs de que falei aqui outro dia. O serviço aí de baixo foi ao ar no site ainda durante o Hutuz, mas aproveita e pega a dica porque o filme tá passando essa semana em Botafogo. Qualquer dúvida procura pelo Emílio por lá, e diz que foi o sobremusica que avisou.

       Os cariocas vão poder assistir o documentário L.A.P.A na sexta-feira à noite, no Cine Odeon, centro da cidade, na abertura do Hutuz Filme Festival. O filme dos diretores Emílio Domingos e Cavi Borges mostra como cresceu o hip hop do Rio a partir do êxito absoluto do disco Sobrevivendo no Inferno, dos paulistas do Racionais MCs, ainda no fim dos anos 90. E tudo começou, ou pelo menos recomeçou, para os cariocas com uma festa no bairro da Lapa, a Zoeira.
       Foi lá que um dos diretores, Emílio, viu pela primeira vez, ao vivo, um confronto na improvisação. “Foi numa madrugada. Lá pras três e meia da manhã os MCs paravam a pista pra ter a batalha. O som não era bom, o microfone falhava, mas eu lembro de ter ficado impressionado”. A essa altura, rapper que era rapper conhecia as regras que tinha visto e revisto em 8 Mile, o filme do americano branquelo Eminem. E mesmo na rua, juntava gente pagando um real pra improvisar também. E de repente fazer o nome na roda e sair com um dinheirinho pra casa. Aliás, no próprio documentário dá pra ver como isso se dá debaixo dos arcos do bairro que já viu tantos malandros de hoje e de ontem passarem.
       O resultado de dois anos de gravação e quatro meses de edição mostra como, se o caminho do rap paulista seguiu os preceitos políticos e sociais do Racionais, no Rio as rimas inventadas na hora formaram muita gente que hoje é profissional e trabalha espalhando free style pelo país. O MC Lapa, Aori, que é o condutor aqui do Duelo de MCs da Oi, aparece no filme e explica parte dessa história. Ele organiza também a Liga dos MCs, que reúne rimadores de várias partes do país.
       Entre imagens de ônibus lotados, camelôs vendendo cerveja e muita gente andando pra um lado e outro, Emílio e Cavi soltam um flow que anda sem perder o ritmo por ruas asfaltadas ou de terra, entre ladeiras, esquinas e buzinas. Emílio acha que como uma batalha “pode ser feita no meio da rua, com um beatbox improvisado na boca, isso se espalha. Envolve o público, faz reagir, vibrar, e os MCs põem no improviso o que tá ao redor. Daí gera identificação. E o que é cotidiano vira rima, vira arte, e volta pra vida daquelas pessoas.”
       Tanto é assim que quando a tal festa Zoeira terminou, os improvisos em vez de fraquejarem ficaram é mais fortes. “Com o fim da Zoeira, a Batalha do Real e outras batalhas como a do Conhecimento viraram ponto de encontro pra trocar idéia, mostrar trabalho, e reforçar a cultura”. Junto a tudo isso, ficou mais barato gravar em um estúdio, botar a música na Internet, ouvir coisas novas. Ainda assim, não tá fácil aparecer no meio de tantos outros tentando. “A batalha é perfeita pra testar trabalho. É um palco aberto, é só chegar e dizer: eu quero duelar. Isso formou uma nova geração de MCs no Rio, moleques se apresentando e se tornando artistas”.
       No documentário, esses moleques são os personagens principais. Eles mostram como praticam a improvisação, quando e como se apresentam, as estratégias para começar a ser falado e respeitado, e o pulo do gato pra ter umas músicas prontas e poder trabalhar de rap. Começa tudo com a mente afiada e a língua sagaz. O resto é batalha de dia-a-dia…