A correria e as viagens deram uma travada no ritmo do Dossiê Mallu. Ficou faltando a parte final que era a conversa que tive com ela durante as gravações do cd de estréia da moça, cá no Rio, em julho. Na ocasião estive no estúdio para fazer uma matéria para a Rolling Stone de setembro. 

Como o tempo não costuma perdoar, o texto da entrevista ficou um tanto “desatualizado” diante das últimas notícias envolvendo Mallu, mas foi assim que as palavras saíram da boca dela. Uma menina que, como eu disse, impressiona pela segurança, pela facilidade com que discorre sobre temas que, em teoria, passam ao largo da maioria das meninas de sua idade. Conscientemente ou não, ela se vale da tenra idade quando lhe convém. Algumas respostas ficam entre o irônico e o inocente. Ao contrário do que a maioria das entrevistas monossilábicas que faziam supor, Mallu mostra como é desenvolta, muito esperta em suas respostas a quem lhe olha querendo respostas aos pré-conceitos e segura dos rumos que ela mesma dita para si. 

Bruno Maia: Primeira coisa que quero te perguntar é o seguinte: Tudo foi muito rápido, muito veloz… E vc apareceu na internet com aquelas gravações que você fez, que você pediu as horas de estúdio de presente de aniversário e tal e sete meses depois, você está gravando num estúdio desse porte, como o AR, com um aparato de gente em volta de você. Como está sendo esse momento? Você imaginava o que era um estúdio desse tamanho?

Mallu Magalhães: É… Eu achei que ia ser muito mais frio, não imaginei que fosse ser tão legal, foi isso que me surpreendeu….

BM: Você conhecia o Mário Caldato? Já tinha ouvido algo sobre ele?

MM: Já… Eu conheci ele uma vez, numa conversa rápida, daí meu empresário levou ele num show e eu disse que gostei pra caramba, daí eu fui pesquisar o que que ele tinha feito e o cara né… (risos) Puta repertório bom, você entra no site dele… e, putz, que honra, né… A gente ficou super feliz de saber que ele ia trabalhar com a gente…

BM: E quando você viu essa lista, tinha algum album dele que você gostava, que já tinha escutado ou era mais de conhecer o nome dos artistas, mas não especificamente os albums…

MM: Já, já… Ele fez dois do Jack Johnson, os dois que eu mais gostava… Eu era muito fã de Jack Johnson… Agora eu não ouço mais tanto assim, mas tinha uma época que eu ouvia demais assim..

BM: E por que você parou?

MM: Não parei, mas é que eu comecei a ouvir cada vez mais coisas, assim sabe…  As coisas que eu ouvia muito diminuiram a ouvir só regularmente e nem tanto sempre… Mas ele é muuuito bom, sabe?! Tanto o Jack Johnson quanto o Mário… (risos)

BM: Vocês já conversaram alguma coisa sobre o Jack Johnson? Foi tirar alguma curiosidade?

MM: Não, não… mas é porque eu esqueci… Seria uma boa, hein… E daí, quando a gente chegou aqui e olhou pro Marioca e pensou: “Nossa, o Marioca deve ser o maior durão, né…” Aí a gente começou a fazer a nossa brincadeira. A gente não consegue, não se controla. Daí ele começou a ficar bobo também (risos)

BM: Marioca veio de quê?

MM: Acho que foi o Jorge. Aí eu fiz a plaquinha… Daí eu comecei a pendurar os meus desenhos pelo estúdio, fazer pegadinha com todo mundo, imitar o Marioca, daí quebrou assim…Eu pensei que ia ser super frio. O Marcelo até, o meu amigo, Camelo, ele falou: “Oh, Mallu”, ele me emprestou uma luminária que tem bolinhas coloridas que giram igual a discoteca, mas pequenininha, e falou “Olha, leva isso pro estúdio, que lá deve ser meio frio, um clima meio profissional…: Aí eu cheguei no estúdio, assim, toda com medo, assim, com a minha bolinha colorida, daí, mas super-legal, é super tranquilo. O André também é muito legal…

BM: Eu já vi várias entrevistas suas falando dos seus instrumentos, que você dá nomes para eles, conserta e eu não sei até que ponto os seus consertos de instrumentos fazem eles ficarem com uma qualidade tão grande a ponto de você poder gravar com eles. O Mário deixou você gravar com eles? Ou eles foram excluídos e ficaram de fora da brincadeira?

MM: Ah, mais ou menos… (risos) Então… Na verdade, que eu consertei, que eu sempre consertava era o Tuto, que era o meu banjo, só que ai aconteceu que o meu pai me deu meio que de presente, meio que comprou pra ele também, (risos), meio que “é meu, mas é o seu presente”, saca? (risos) Daí, aí… É “é seu presente, mas fui eu quem comprou”… Eu amo meu pai… É, você entendeu a relação, né?…

BM: Entendi, entendi…

MM: É… Daí é um banjo, é um Fender… Porque nos shows não dá pra fazer a captação do Tuto, é muito fraquinho.

BM: Como é que escreve Tuto? T-U-T-U?

MM: Não, T-U-T-O… Lindo, né… Então, daí… Eu fui e nem trouxe… Tava meio caindo, né… Daí eu trouxe o Fender..

BM: Teve algum que você tentou trazer e o Mário disse que não?

MM: Não.. Não… Assim, é muito difícil eu receber um não… do Mário… e sempre que eu recebo, eu levo numa boa.

BM: Você disse que é difícil receber um “não” do Mário. De quem é a pessoa a sua volta que mais te dá não hoje em dia?

MM: Meus pais.

BM: É, né… Eu estava comentando ali fora que eu não sei até que ponto você tem idéia do quanto já existe de expectativa em torno de um disco seu e de quanto as pessoas que estão à sua volta já te protegem e te cercam da loucura que pode vir a ser o show business… Você tem idéia do que é essa expectativa e do quanto as pessoas querem ouvir esse disco? Isso passa pela sua cabeça?

MM: Não…

BM: Você sente de alguma forma essa proteção imensa dessa turma que está à sua volta? Como é que é conversado isso?

MM: Sinto… Eles me abraçam pra caramba… E sempre para atravessar a rua, semptre tem alguém… Porque aqui no Rio as pessoas passam muito rápido.

BM: Entendi. E a essa altura já há alguma participação gravada no seu disco que possa ser revelada?

MM: Não…

BM: Não tem ou não pode ser revelada?

MM: (risos) Não, não tem… E por isso não pode ser revelada…

BM: Lógico…

BM: E o repertório do Myspace vai estar todo no disco ou algo vai ficar de for a?

MM: Sim, sim…Vão ser todas músicas minhas e a gente está colocando umas 12, 13, 14, músicas e uma hidden-track de jam session, assim… Eu tive essa idéia de fazer uma hidden assim, sabe, botar todo mundo e falar: “Oh, toca aí um… um blues em Mi”.  Daí eu chego com uma gaitinha e fueun-fueunn-parara… Daí isso é a jam-session de hidden-track, né… A pessoa fica lá escutando até o final e ai chega e tchunánnn!!!

BM: E esse papo de gravadora? Você participa dessas conversas de por onde o disco vai sair, se vai ser independente…. Você gosta de discutir isso ou deixa mais com o seu pai, com o empresário?

MM: Eu separo umas coisas. Eu gosto muito de discutir. Porque além de ser a minha imagem, a arte é minha, né? Bem ou mal, precisa ter alguém pra vender a arte, né… Você pensa, “Ah, Beatles, uma putz banda porque eles só tinham artistas, eram caras fascinantes…” Eram, lógico. Mas sempre tem por trás uma estrutura, isso sempre existe. Agora, a independência não é a ausência de estrutura. É só uma nova formulação da estrutura. E eu acho muito melhor, assim. E por isso que a gente acabou decidindo ser independente, assim né. Por vários motivos. Primero porque nenhum contrato realmente meio que nos apeteceu. A gente não leu nenhum contrato e falou: “Putz, isso aqui vai ser bom pra gente”. Nenhum… Lógico que se vier um, eu estou completamente aberta. Mas enquanto não vier um contrato decente, eu não vou assinar!! E eu acho bem difícil chegar um decente. É difícil os caras oferecerem alguma coisa…

BM: Mas você diz em termos de estrutura ou em termos de grana?

MM: Os dois. Daí assim… O meu pai… Começou eu e o Bife, assim… (risos) Bife é o meu empresário, (risos), a gente ouvindo o que os caras tinham a dizer, chamando a gente par air em escritório… Daí a gente ia lá e eu fazia questionários: “Qual a combinação? Rosa com verde ou laranja com amarelo?” Sabe essas coisas assim?! (risos) Eu fazia perguntas subjetivas, até sobre artistas… E daí, a gente ficou um tempão assim. Sentava com meu pai e ele dizia: ”Mallu, eu não posso nem deixar isso, minha filha…”

BM: Mas fazer uma coisa como ceder uma música para um comercial da  Vivo valeu mais a pena?

MM: Ahhh, lógico!! Pra ser bem sincera? O que a Vivo pagou pra gente, paga o disco. Aí é que tá.

BM: Você usa um acordo como esse para viabilizar essa escolha e fazer um disco tendo Mário Caldato, essas coisas…

MM: É isso que eu to dizendo. É sempre importante ter… Bem ou mal, a gente precisa ter um lado comercial para poder comprar e promover o melhor da arte. 

BM: E o contrato ajudou, né..

MM: Ajudou pra caramba, e foi uma parada super tranquila, sabe? A gente foi lá no estúdio deles, daí eu gravei só voz. E eu gostei pra caramba de como estavam as coisas… Eles ofereceram fazer um pa-pa-pa-papa de backing e eu achei demais…

BM: Você gostou da propaganda?

MM: Achei demais, assim… Também a gente teve esse cuidado de ver… Também era só o que faltava, né, botar a minha música e um cara “Compre já, compre o seu super-legal”.. Teve um tratamento. E eu acho que isso é muito importante de a gente pensar: como vender a arte, sem vender que nem… Entende, né…

 

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Havia ainda mais uma entrevista com Rossato, o empresário de Mallu. Mas um infortúnio analógico com a fita me fez confirmar que quando eu gravo digitalmente as entrevistas, tudo fica mais seguro… Fica pra próxima.