Talvez fosse difícil imaginar que ele topasse pegar uma jovem cantora “pra criar”. Acostumado a trabalhar com “gente grande” e conhecido por escolher a dedo os trabalhos que aceita, impressionou quando Mario Caldato aceitou o convite. Toda uma possível reverência de uma iniciante, frente a um produtor que já virou grife, acabou depois de pouquíssimo tempo em estúdio, como a série de entrevistas que começa agora vai mostrar. Toda a pompa de Mario Caldato foi reduzida a “Marioca”, o produtor da Mallu.

Se ela não consegue ler uma matéria sem as tags “cantora de 15 anos” “sucesso na internet”, Caldato também já se acostumou com os elogios como “super produtor” e a ler, em todas as matérias, uma parte de seu vasto e poderoso currículo. Desde que o Planet Hemp foi procurá-lo nos idos da década de 90, o paulista radicado nos Estados Unidos, viu surgir a chance de se reaproximar de sua pátria de origem, já tão distante. Começou a vir pra cá e gravar pesos-pesados. Disseram para Mallu que ele era “o cara”. Ela foi na internet, viu o currículo dele e se impressionou. Foram apresentados e ela o achou gente boa.

Em outra oportunidade, estive com Caldato em estúdio, acompanhando a gravação do disco do Manacá, no estúdio Toca do Bandido. A impressão que ele deixara era a da sisudez, irritação à flor da pele, seriedade extrema. Dessa vez, não. Naquela tarde, no estúdio AR, perto da praia, Caldato era pura leveza, sorriso e simpatia. Logo se lembrou da minha fisionomia, precisou de ajuda para ligá-la à ocasião. Depois de ser lembrado, me pediu desculpas por aqueles dias com o Manacá, e seguiu para a entrevista com extrema boa-vontade. Mario Caldato estava mais jovial, mais “Marioca”.

(Lembrado que a entrevista foi feita inicialmente para a matéria sobre a gravação do álbum da Mallu para a edição de setembro da Rolling Stone e já saiu das bancas. Ao fim desta série, publicarei o texto da matéria por aqui também. )

Bruno Maia: Então, vamos lá… a matéria é sobre a Mallu em estúdio e a primeira pergunta é se ela é a pessoa mais jovem com quem você já trabalhou.

Mario Caldato: Com certeza não… Quer dizer, com certeza, sim! Ela é a mais jovem.. Ah… É, eu já gravei crianças, (risos), mas assim fazendo as coisas… E ela é séria. (risos) É, ela é séria…

BM: Quando foi que você conheceu a Mallu?

MC: Foi em um telefonema do pessoal que trabalha com ela. Eu não sei se ela tinha interesse ou se eles tinham o interesse. Alguém me chamou, falou sobre ela e eu fui ouvir o som e achei maneiro! Vi ela na televisão também…”Hmm.. Tem alguma coisa, tem algo especial”..

BM: Depois de um mês em estúdio você conseguiu descobrir o que é que é isso “especial” dela? Porque todo mundo percebe um brilho, mas ninguém detecta direito o que é.

MC: Na verdade não é um mês, são quase duas semanas. Mas… Ela é completamente natural. A semente foi plantada direito. Com a música em volta, com os pais, a mãe, o pai.. Não sei que clima que ela tem em casa, mas eu acho que isso tem a ver, foi obviamente uma influência nela, ter um acesso a música que muitas pessoas não tem… E ela tem essa vontade de fazer essa coisa que ela está fazendo, que nem ela imaginava que as coisas iam crescer tanto, mas está sendo natural, o que é bacana. Não é uma coisa forçada. Ela toca violão e canta natural. Tem esse conceito de construir músicas muito simples, diferente e bom. Isso que é importante. Coisas simples. O resto faz um complemento. Ela foi gravar e conheceu uns caras que se ligaram no que ela estava fazendo, entenderam o que era aquilo e viram a possibilidade de dar um brilho, colocando outras coisas e, imagino, ela gostou, achou bacana… Eles são muito bons e ajudam ela bastante, dão um suporte para conseguir fazer… E viu que é uma vida que ela está começando e gostando, então ela faz com muito prazer isso de tocar e fazer as pessoas felizes. Não é fácil, mas é muito bacana quando acontece. E eu sinto que ela gosta disso. Todo mundo gosta quando você faz algo bacana e as outras pessoas sentem e percebem isso…

BM: Até pela influência da hegemonia cultural norte-americana, a gente vê muitos jovens da idade da Mallu cantando em inglês. Quem quis fazer isso sempre foi muito criticado aqui no Brasil. Poucos foram pra frente como o Sepultura ou o Cansei de Ser Sexy… Você, enquanto alguém que cresceu nos Estados Unidos e viu mais de perto essa referência cultural folk que a Mallu tanto se relaciona, como é que você percebe essa relação dela? Te parece natural?

MC: Eu acho muito engraçado. Acho que as pessoas que ouvem música com as orelhas abertas vão achar essa música interessante, não vão querer saber de onde ela veio ou quantos anos ela tem. Só depois que eles vão pensar “Nossa, tá legal! Tem só 15 anos?! E tá falando sobre esses assuntos?!?” É meio diferente. Eu não conheço muitas pessoas escrevendo coisas tão complexas e tão simples, mesmo nos Estados Unidos. Não é uma coisa que se veja todos os dias, é raro, pelo menos para a minha experência.

BM: E o inglês dela funciona bem cantando? O sotaque…

MC: Eu acho que cada pessoa tem seu charme. Pessoas de outros países que cantam em inglês têm essas coisinhas, acho bacana, diferente. É o que é. Ela canta bem. Ela tem um suingue, um jeitinho… E só com o tempo a gente vai começar a ver…

BM: E pelas referências dela serem tão antigas, houve alguma busca de sonoridade em estúdio para tentar ajudá-la a chegar perto daquilo que ela tanto gosta de ouvir? Como foi o processo de ajudá-la a criar esse som?

MC: Primeiro a gente escolheu gravar nesse estúdio porque eles têm uma mesa antiga, uma EMI dos anos 70, que é muito bacana. Tem um som original que todos os discos daquela época, a maioria, pelo menos na EMI, foi gravado nessa mesa. Beatles, Pink Floyd, todo mundo usava essa ela. E tem um som vintage, esse som legal. É da Inglaterra, é a mesma do Abbey Road. A EMI fabricava esses equipamentos e mandava para os estúdios das filiais do mundo. Então essa mesa era do estúdio da EMI do Brasil, todos os discos dos anos 70 da EMI foram gravados naquela mesa. Um grande pedaço da história da música brasileira passou por ali, as vozes de todos os cantores, cantoras… E agora, ela está passando também. A primeira escolha foi usar esse estúdio e também gravar em fita. E nós só estamos usando apenas 16 canais, de 2 polegadas, tudo analógico…

BM: E a quanto tempo você não fazia um disco assim?

MC: Na verdade eu fiz alguns nos últimos anos, mas não em 16 canais, sempre em 24. E não numa mesa EMI (risos)… É bacana, ter esse equipamento velho ajuda. Usando microfones valvulados, dos anos 50, 60. Mas tudo vem dela. Ela pode gravar em casa, em qualquer lugar, que fica bom. Vem dela, vem da mão e vem da voz dela.

BM: E teve alguma coisa que você desconfiava dela antes de entrar em estúdio, que você tinha dúvidas se iria funcionar?

MC: Eu nunca imaginei que ela fosse tão boa quanto ela é. Ela é muito criativa, espontânea… E ela nunca faz uma coisa do mesmo jeito duas vezes! (risos) Isso é muito artístico, muito bacana, mas no estúdio, às vezes você (o produtor) quer que a pessoa faça algumas vezes a mesma coisa para melhorar. Só que a Mallu faz sempre diferente e sempre fica bom! Então é uma surpresa descobrir o quão boa ela realmente é. Fresh… E ela é muito engraçada. Se não fizesse música, podia trabalhar num circo…

BM: E o Marioca?

MC: Marioca… Ela gosta de inventar… Mário Carioca… Na verdade, eu sou paulista. Mas minha esposa vai adorar que eu vire carioca… É o sonho dela.

BM: De uns tempos pra cá, você têm feito cada vez mais coisa no Brasil, até com artistas em primeiro disco. Isso de alguma forma é um interesse maior de ficar aqui, com a música daqui, ou são coisas familiares… Você fez o Manacá recentemente (previsto para ser lançado em janeiro/2009), agora a Mallu, outro artista novo daqui… O que te leva a isso nesse momento?

MC: Ah, eu estou aqui há uns quatro anos. A minha família está aqui, então eu estou tentando ficarpor enquanto, por um tempo e… trabalhar. Se não é pegar avião, 13 horas, ir para os Estados Unidos trabalhar também…

BM: Mas você acha que está rolando algo legal musicalmente nesse momento aqui também ou…

MC: Aqui tem muita música boa para gravar e trabalhar… Algumas vezes as outras coisas aqui é que são mais difíceis, mas sempre tem um jeito para sanar… E eu vou onde eu trabalho. Também é bacana Inglaterra, França, sei lá… Austrália… eu já viajei muito. Mas eu estou aqui no Brasil, quero fazer o máximo que puder.