O Magalhães já virou detalhe. A intimidade é um sentimento comum a todos que a conhecem, seja pessoalmente, seja pelo Myspace. O sentimento virtual muitas vezes se impõe ao real e quase todos falam dela usando apenas o apelido de Maria Luiza. O clima intimista de suas músicas ajuda a criar isso. Além do que ela tem 15 anos e ela é fofa. Não, não me diga que ela já tem 16 porque por muito tempo ela vai ser aquela cantora de 15 anos. Tem um quê de Peter Pan no encantamento das pessoas. Não nela, mas no olhar sobre ela.

Dela para o mundo o olhar parece ser outro. Mallu me é apresentada e corre em minha direção. Me abraça forte, como se quisesse reafirmar nossa antiga amizade que nunca existiu. E ela o faz com todos os que são apresentados na seqüência. Parece uma adolescente recém-encantada por Sociedade dos Poetas Mortos que, terna e ingenuamente, acredita na poesia de um “Carpe Diem”, em negação a frieza adulta. A força do singelo e dos detalhes se impõe e cativam seu olhar. Cada encontro tem a magia como potencial. O abraço é forte, longo. Já afroxei meus braços, ela ainda não.

Naqueles segundos, um susto toma conta do pensamento. Quando ela solta, você já a acha muito simpática. Um sorriso que não é protocolar e uma série de perguntas se inicia. Dela para você, é claro. Ela se apega a algum desses mil detalhes que cada um traz consigo e enche de perguntas. É normal que durante as tantas perguntas enfileiradas, algo lhe corte o pensamento e mude o rumo da conversa, o assunto, o foco dos seus olhos ou mesmo a faça sair correndo em outra direção. Mallu é muito intensa.

Seus assuntos variam com estranha complexidade e fluidez. Na presença dela é muito difícil acreditar que tenha (tinha, tá bom!) 15 anos apenas. E como eu estava ali como jornalista, me vejo irreparavelmente veiculado a esta informação. A cada explanação sobre o processo de formação do sistema educacional ocidental, ou a cada rajada de citações e referências artísticas elaboradas com a intimidade de quem sabe muito bem do que está falando, o meu pensamento não consegue esquecer a pergunta: “Como que ela só tem 15 anos?”

Lembro que cheguei ao estúdio com uma certa raiva. Antes do convite do Pablo e após a negação do pedido para gravar o making of, pedi para fazemos uma matéria da Mallu com o Vitor Araújo, que estava no Rio na mesma época, para publicar no SOBREMUSICA. A resposta foi mais uma vez negativa, sob a justificativa de que nada seria feito enquanto a Mallu estivesse em estúdio. Ok. Após o convite da Rolling Stone vi que não seria bem assim. Reiniciei conversas com a assessoria de imprensa para acertar os detalhes da tal matéria para a revista (já fora de circulação e que publicarei aqui ao final desta série). Ao se ligar que eu era o mesmo cara de um site que tinha escrito semanas antes, a assessora começou a colocar objeções a qualquer material que pudesse ser produzido para um “blog”. Quando comentei que tenho o hábito de filmar todas as minhas entrevistas, ainda que para guardar como arquivo, tive vetado pela primeira vez o uso da minha câmera com um artista brasileiro. “Bruno, eu não combinei nada de filmagem com a Rolling Stone” e “Por favor, não publique nada antes no seu site”, como se quisesse ensinar procedimentos jornalísticos e pautar qual deveria ser a minha relação com a revista – que sempre foi ótima e de total confiança. Ainda assim, já que eu iria mesmo ao estúdio e que o Vitor continuava na cidade, tentei mais uma vez pedir para que fizéssemos a tal matéria. Veto de novo.

A bolha em volta da Mallu me irritava profundamente naqueles dias pré-entrevista. Ao chegar no estúdio, numa imensa coincidência, o próprio Vitor estava lá. Ele sabia das minhas tentativas, tinha dado seu ok para a matéria, mas já estava ciente do veto da assessora. Vitor e Mallu já trocam conversas há alguns meses, com uma recíproca admiração. Do alto dos seus 19 anos, ele percebe nela uma companheira de geração apesar de tantas diferenças estéticas. Ele e eu rimos da coincidência e ficamos por lá. Vitor tinha sido convidado por ela para assistir a gravação e visitá-la, mas não tocou nada no álbum. Foi com essa raiva decorrente da bolha que eu fui rapidamente desarmado pelo carisma daquela menina.

O pai dela, Eduardo, também estava por lá. Depois de muita correria, ele tinha conseguido, enfim, chegar ao Rio para acompanhar as gravações, que aquela altura já estavam na fase final. Engenheiro e músico amador, nunca trabalhou com a arte, apesar de uma sensibilidade visível. Tenta proteger a filha sem cortar a grande viagem em que ela embarcou. Eduardo impõe a rotina que os pais de uma menina em formação julgam ser importantes nessa idade. Sim, ele já sabe o caminho que a filha vai fazer e fica muito feliz por isso, mas não pode afrouxar a corda agora. É pro bem dela. Mallu, inocente, acha que os pais não sabem que ela já se decidiu. “Aos poucos eu estou fazendo a minha carreira entrar mais na minha vida e assim eles vão ficando mais tranqüilos. Tenho que ir aos poucos para ir conquistando as coisas”. Essa percepção da relação com o pai é um norte que a carreira musical dela não lhe dará mais.

printscreen de vídeo O Globo

Me lembro de ter lido sobre o desejo que ela tinha de fazer uma faculdade de desenho industrial, de que ainda não tinha certeza de que queria fazer música pelo resto da vida e toco no assunto. Ali, depois de seis meses de carreira e 15 dias em um grande estúdio, cercada por um dos maiores produtores do mundo, cercada pelas doçuras da vida artística, protegida da superexposição e ouvindo sua música ganhar vida no monitor daqueles computadores, Mallu já parece bem mais convicta. “Acho que a arte vai estar comigo pra sempre. Não consigo mais me imaginar levando a vida sem estar fazendo música em algum grau”. De repente, diz que precisa entrar pra gravar uns passos e me convida para assistir. Mallu conversa com muita intimidade com um sorridente Caldato. Entra na sala de gravação e começa a fazer barulhos e andar pela sala. A música em questão é a inédita “Angelina”. Ela experimenta variações de ritmos e intensidades em seus passos. O pensamento dela segue a mesma lógica da conversa e flui por muitas idéias. Cada regravação é diferente da anterior e todas são engraçadas, divertidas e sucedidas por convincentes explicações. A criatividade daquela mente provoca risos em todos no aquário do estúdio.