Foi o melhor show do festival. Sem parar, sem respirar, sem abrir mão de resistir ou de fazer festa. O Gogol Bordello celebra a insatisfação com uma loucura que mexe e respeita a tradição, e atualiza o Clash para um mundo sem guerra fria e sem hegemonia, embora o inglês seja mesmo a língua que unifica (e a sede seja Nova Iorque).
      O tom é de cabaret (ou bordel, puteiro) cigano. Louva a transitoriedade, o confronto com o fixo, com o parado. As duas meninas que surgem e desaparecem para direcionar os pensamentos dos com calor em meio à população reforçam o inesperado do mundo, a surpresa que muda a ordem das coisas. Ao pular, arrebentar corsas do violão, correr para um lado e outro, fingir que chuta o roadie ou beber vinho na garrafa, a banda fala de circulação de informação, de velocidade da violência, de tecnologia e sociedade. É muito mais do que um controle remoto ou uma busca no google, é tão efetivo quanto um dj com mash-ups e um repertório imenso de LPs colado a um laptop aberto no myspace. E, essencialmente, ao juntar no mesmo palco Israel, Rússia, Ucrânia, Etiópia, EUA, Equador e uma série de filhos de duas pátrias (uma sino-escocesa, um japa-romeno, etc). Lembra Móveis Coloniais de Acaju, Karnak, Sons of Invention, mas lembra principalmente The Non-Smoking Orchestra, a banda do diretor Emir Kusturica.
      Em um momento em que surto e teatro se confundiram - e o que não é surto hoje em dia, de um pulo na pesquisa de intenção a uma recuperação da bolsa? - o vocalista Eugene Hurtz lançou um “Ela não gosta de mim” a que pouca gente reagiu, seguido de um “Morena tropicana, eu quero seu sabor, oioioiô” que foi ovacionado. Pra quem ainda duvida, é mais um sinal de que o Brasil está definitivamente inserido na nova (ordem) mundial. E crise é oportunidade para ser criativo, para mudar de rumo.