Coube ao Klaxons uma responsabilidade além de sua capacidade: manter o nível de uma noite que ainda deveria ter contado com o Gossip da fodona Beth Ditto. A tenda principal tinha algo entre metade e dois terços da lotação, em uma avaliação otimista. A banda abriu com Bounce, ainda meio não-oficial, e foi logo para Atlantis to Interzone e Golden Skans, com Gravity’s Rainbow um pouco depois, ainda na primeira metade do show. A estratégia de mostrar logo quem são deu certo, e a partir daí foi uma questão de administrar.
O Klaxons surgiu como uma banda que botava sirene no som, e que inventou a piada que ameaçou se tornar a prisão da banda: o new rave. Apesar da falta de precisão no termo, um nome desses era bom demais para passar em branco pela exagerada e ansiosa imprensa inglesa, e inspirador demais para os caçadores de hype da noite por onde eles começaram a tocar mais e mais. Daqui, lemos que bastões fosforescentes e roupas verde-limão e rosa-choque se tornaram uniforme do que não poderia mais se chamar de outra coisa. A new rave virou a moda descartável da vez, e o Klaxons sentiu que estava refém. Decidiu proibir a entrada dequalquer utensílio new rave em shows. Hoje, é uma banda promissora a fim de dar um passo adiante. Foi isso que tocou na Marina da Glória.
O som é rock, tem muito pouco de eletrônico para se aproximar a qualquer idéia de rave. No máximo, é referente a um tempo e um espaço em que as raves nasciam. Mas é muito mau humor que o Klaxons é retrô: o dueto onipresente das vozes é uma opção que dá um tom meio fantasmagórico, mas não robótico, às músicas. Os timbres da guitarra de Simon Taylor e do teclado de James Righton dão a sensação de que a brincadeira deles é com um futurismo menos tecnológico e mais cavernoso.
Ainda assim, não dá pra dizer que a apresentação hoje, como é, não ganharia muito com um carnaval-rave do público. As roupas esvoaçantes da banda pedem uma resposta do público para que se crie um aspecto de seita, de deuses/mitos/espíritos de um futuro pós-oitentista, escuro mas com brilhos concentrados. Ou seja, o Klaxons quer crescer, e opta por ir além do estilo que ajudou a inventar. Pode ser a melhor estratégia para não ser eternamente a mesma coisa do primeiro álbum. Mas por enquanto é só uma renúncia a algo que, por aqui, ainda podia ser legal.
O Neon Neon não demorou muito para começar o show que abriu a noite. E de cara mostrou ser mais do que só a outra banda de Gruff Rhys, do Super Furry Animals. Mas também mostrou que não era páreo para compensar a expectativa frustrada pelo cancelamento de the Gossip. Para definir, seria uma excelente banda de pub do Reino Unido - atrás de um repertório mais parrudo para pular de nível e ser banda de festival. O Klaxons, pra mim, é isso: banda de festival. Pra ser banda séria e tocar sozinha, ainda falta fôlego.
O show do Neon x2 (no myspace é assim) corre bem, as pernas da baixista (não achei o nome dela) chamam atenção tanto quanto as projeções com grafismos oitentistas, tudo alinhado aos timbres da mesma época. Uma boa banda retrô, surpresa legal para um público que em geral não sabia bem o que esperar. Entre uma música e outra, uma voz fina convoca em um portugês macarrônico a “galera linda”, “eletrizante”, e coisas assim. A voz não é de nenhum dos quatro no palco, fica a dúvida sobre de onde viria, se pode ser um sample gravado só para o festival, entre tentativas e erros na frente de um papel com a cola. A dúvida persiste enquanto o Neon Neon toca Raquel Welsch, a homenagem à musa do cinema dos anos 70, uma das que se destacam no repertório. E enquanto Rhys segura uma guitarra que parece não funcionar, e briga com o roadie que tenta retirá-la do palco. Engraçado.
Até que o show cresce com o anúncio do “próximo presidente dos EUA”: Har Mar Superstar. E entra o figura de cabelo comprido, mas calvo. Barrigudo, baixinho, com uma camisa curta demais, luvas douradas até o cotovelo e cheias de franjinhas, cueca listrada aparecendo… Ganha o público na hora, e sem parar de correr, levanta o festival que até então só assistia quieto. Até uma bananeira na frente do palco, o folclórico compositor de dance/rock mandou enquanto cantava. Ao fim da música, Superstar agradeceu… em português. Era dele a voz escondida.
Superstar devolve microfone para Rhys, e assume os teclados. A partir daí, o show cai um pouco, e os revezamentos de instrumentos e posições se instala. Vem a homenagem a DeLorean - o tema central do show, e a Michael Douglas. Dois momentos destacados, mas abaixo da volta de Superstar, antes que o show acabasse. Ele ainda voltaria só de cueca para encerrar o show do Klaxons. E uma única certeza: na falta da gordinha do Gossip, o convidado gordinho roubou a festa.
crédito da foto: Nina Lima (festival não liberou foto do Har Mar Superstar)
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