André Midani é desses caras que fazem a gente elucubrar sobre sorte, destino, talento, trabalho duro, carisma, e como juntar tudo isso pra dar em uma vida bem vivida. Ler o que ele tem a contar é dar de cara com um diagnóstico duro para o momento que a indústria do disco vive. E isso, en passant, porque o objetivo central do livro nem é esse.
       A primeira observação que se faz é a da recorrência do erro. Se Midani hoje escreve como um cara que chegou lá e no caminho participou da construção de boa parte do que se conhece por música brasileira, é porque ele teve uma série de tentativas fracassadas ao longo da carreira. Tantas que na atual ansiedade do mercado por lucros rápidos, relatórios de vendas quase que em tempo real, nunca seriam perdoadas. E nunca permitiriam o muito maior número de êxitos, resultados de idéias e dedicação fora do ordinário.
       Pra começar, portanto, a história da vida de Midani por ele mesmo é uma história em defesa do carisma contra a objetividade. Do artista em vez do hit. Do médio prazo ao invés do imediato. A equação que ele defende é a de música e lucro, em vez de lucro e música. Faz diferença, e o que melhor ilustra isso é a expectativa que ele diz que tinha em relação ao primeiro disco de qualquer artista: fracasso. “O primeiro disco era sempre considerado um teste de mercado (…); com o segundo ainda se perdia algum [dinheiro] (…); no terceiro dava pra recuperar as perdas; e a partir do quarto se poderia finalmente esperar ganhar dinheiro”.
       É claro que uma defesa dessas feita depois dos fatos não é tão difícil ou corajosa quanto uma no olho do furacão, mas a verdade é que o autor está credenciado a tanto, nesse caso.

       A auto-biografia do último grande nome de gravadora a ser respeitado no Brasil (não confundir Midani com Marcos Maynard – que é o do rombo fraudulento que atingiu a EMI internacional) é uma leitura que se relaciona com duas outras, a de Marco Mazzola (Ouvindo Estrelas) e a de Nelson Motta (Noites Tropicais). Não tem o charme da escrita de Motta, o que a aproxima da espontaneidade de Mazzola, mas tem a vaidade elegante e meio exibicionista do Motta. E aí, o Mazzola fica só com a vaidade. Não precisa dizer que os três são personagens dos três livros.
       O livro de Midani é um de belas histórias de bastidor, mas não do mundo de celebridades e fofocas. Tem o suficiente apenas para alimentar as assessorias de imprensa na hora de botar o livro pra circular nas colunas. O que chama mesmo a atenção são as implicações do negócio dos discos, que incluem uma apuração internacional sobre a rede de pirataria que ligava Macau ao Paraguai na época das fitas cassete, o envolvimento da máfia italiana no surgimento da Warner e depois do jabá, ou mais pra trás a estratégia pra se destacar em um festival da canção.
       Midani trata da formação de um comitê de discussão sobre o mercado com jornalistas, publicitários e empresários com o mesmo olhar crítico com que destrincha a morte de Prince e o nascimento do Artista Anteriormente Conhecido Como Prince. (Depois prince ressuscitaria fora da gravadora.) E isso sem deixar de dar as meias palavras para os dribles que ele mesmo deu em alfândegas e censuras na ditadura, ou para deixar claro que de picuinhas e brigas pessoais também se faz a vida. Ainda assim, esteja preparado: uma auto-biografia é sempre uma auto-biografia. E a memória é sempre uma artista que despreza a desprezada objetividade. E daí?

      Dá pra baixar o primeiro capítulo do livro no site do Midani. Não tem muito de música nele, mas já dá pra sentir quem é o figura.