Londres é a nova Meca. E não é uma questão de hype, ou de última moda. Pelas ruas, parques, mercados e museus da cidade, percebe-se que ali um projeto de integração criativa vem dando certo. Tudo está em obras, estações de metrô passam horas ou fins-de-semana sem funcionar, estruturas de prédio sobem em todos os bairros, homens de capacete da construção civil falam ao celular na calçada, buracos atrapalham o trânsito cercados por sinalizações, mas nada disso atrapalha viver o que ela oferece. 2012 se aproxima, e as Olimpíadas na cidade tem a missão de estar à altura do sucesso de Pequim.
       Tudo começou há onze anos, quando o novo trabalhismo de Tony Blair tinha vencido o thatcherismo e prometia uma nova era para os britânicos. Um congressista homossexual chamado Chris Smith foi nomeado ministro de Cultura, Turismo e Esportes. Bom recado para os conversadores. A partir dele, uma nova diretriz para a chamada economia criativa foi implantada, e acabou abrangendo questões não só de cultura, turismo ou esporte, mas de integração/imigração e de renovação urbana.
       Smith defendia que o incentivo à instalação de locais de produção cultural em áreas desvalorizadas das cidades atraía movimentação e atividades econômicas relacionadas. A isso, chamou de clusters. Ateliês, por exemplo, em um bairro considerado marginal atrairiam restaurantes diferentes, casas de estudantes, bares/pubs, palcos para música, estúdios de design, movimentação, enfim. Era mais barato do que incentivar a instalação de uma grande empresa, ou de uma fábrica: a estratégia usada nos bairros pobres de Nova Iorque, na época do Tolerância Zero. E desencava um processo de revitalização mais orgânico, de certa forma regulado pelo mercado, a partir de um primeiro empurrão do governo. Aconteceu com ateliês de artistas plásticos, mas também com produtoras de vídeo, com feiras de produtos diferenciados (comida de delicatessen, antiguidades, moda). Londres, como maior cidade britânica, foi a que mais aproveitou a idéia.
       Ao tratar a arte, a contracultura e a boemia como parte de um sistema interessante de indústria criativa, meio formal e meio informal, e incentivar tais práticas, o governo pôde criar renda e regularizar uma fatia da população ativa para arrecadar mais em impostos, diretos ou indiretos. Ao reconhecer a produção marginal como uma atividade cultural e econômica, revitalizou regiões urbanas e integrou segmentos da sociedade estigmatizados. Bairros que ninguém mais freqüentava passaram a ser um segredo cada vez mais difícil de gaurdar para a diversão e o consumo – e o objetivo era bem esse.
       Na outra ponta do processo, os imóveis passaram a ter um preço melhor. Ir à feira de moda do bairro indiano, mesmo que sem encontrar um só sarong, virou uma desculpa para um almoço em um restaurante de curry que só seria freqüentado por imigrantes.
       Quem pensa que o ministro da Cultura de Mr Blair foi apenas um entusiasta de uma suposta baixa cultura, no entanto, se engana. Foi Smith quem aprovou uma lei que instituiu a gratuidade a uma série de museus. Visitá-los é uma atração para turistas – que trazem dinheiro para o país – e para britânicos – que ganham em qualidade de vida ao conhecerem a expressão de outras épocas ou outros povos. Portanto, deve ser facilitado. A manutenção deve se dar por outros meios, que incluem doações, clubes de vantagens, e exposições temporárias, que aí sim são cobradas. Nem hoje, mais de dez anos depois, o raciocínio é consagrado no mundo. Mas tomado o exemplo londrino, nada deu mais certo na parceria Turismo-Cultura (não à toa assuntos de um mesmo ministério).
       É evidente que junto com tantas idéias de reforma da dinâmica da cidade, o transporte e o policiamento eram pré-condições básicas. Medo ou insegurança não combinam com desenvolvimento econômico, com gente andando na rua (ainda mais se o clima é o que é), com curiosidade de conhecer novidade.
       Passada mais de uma década, e o Novo Trabalhismo inglês vive a mesma crise de popularidade por que passa a terceira via no mundo inteiro. Um apoio à uma guerra mal justificada no Iraque e uma crise no sistema financeiro e bancário mundial são os dois principais motivos para o momento ruim politicamente, junto com decisões erradas no campo de impostos e na falta de novas idéias tão boas quanto às de 97 (Smith deixou o governo no fim do primeiro mandato de Blair). Fora a falta de carisma de Gordon Brown, mesmo comparado ao cansado Blair dos últimos anos.
       Ainda assim, as marcas da novidade ainda estão na cidade. É só passar o olho nos infinitos jornais gratuitos e vagabundos distribuídos no metrô que largaram a família real para acompanhar o que menos importa em jovens milionárias como Kate Perry, Amy Winehouse e Lilly Allen. Ou observar os outdoors de bancos multinacionais com sorrisos de clientes africanos, coreanos e brasileiros. Ou passar por uma exposição de projetos finais de uma escola de design, na porta de um festival de música na feira, onde os sobrenomes indicam que mais da metade dos estudantes não nasceu em território britânico. Goste ou não, tudo é parte de uma cadeia produtiva recente e que ocupa boa parte da sociedade que é produtora, jornalista, cozinheira, designer, artista, escritora, costureira, estilista, etc.
       Nas paredes, o grafite é presente tanto quanto nos livros de arte que estão em lojinhas de museu, de música, de roupa, e até nas livrarias comuns. Banksy, por lá, é best seller. Até tour pelas intervenções dele é vendido em forma de livro de bolso. A cidade admite o colorido e a contestação, em vez de preferir o cinza. Naturalmente, os subprodutos brotam, e é molinho encontrar um camelô com camisetas, pôsters, reproduções. Admite também o estrangeiro, apesar de não afrouxar a entrada dele no aeroporto. A indústria criativa não deixa de ser também uma indústria cultural reciclada, com a máquina de reprodutibilidades técnicas ligada na tomada e na caixa registradora.
       Seja lá o que vier de resultado nas eleições que devem tirar o primeiro-ministro Brown do cargo que herdou de Blair, a Londres que receber daqui a quatro anos os Jogos Olímpicos é uma Londres nova, e nova para muito além do que for aparecer atrás dos tapumes de obras. O Reino Unido de Margareth Thatcher era a última grande imagem que os estrangeiros, ainda mais os de fora da Europa, tinham do país. E esse Reino Unido hoje é só uma referência histórica, que para os menos atentos pode passar batida assim como os estilhaços de guerra que ainda enfeiam a parede da Tate Britain, na beira do rio Tâmisa.
       Ou seja, um projeto de país achou em uma cidade de mais destaque o local para marcar simbolicamente a mudança, e essa conquista vai dar em uma Olimpíada. Não é um exemplo de paraíso, não venham me dizer que inglês não fura a fila, que ônibus não passa o sinal vermelho, que cambistas e falsificadores são uma instituição da cultura, ou que qualquer casa de show está preocupada com o conforto do público na hora de sair.
       Mas sem querer ser pessimista ou rabugento, o Rio de Janeiro que quer os Jogos de 2016 ainda precisa de muitas mudanças de comportamento antes de se sentir mesmo uma cidade pronta para um evento com tanta carga política e simbólica. Não é só questão de até onde vai o metrô, ou de como fazer a favela se comportar. É isso e mais, é criar uma identidade urbanística para a cidade, que permita a qualquer um circular por aqui sem se perder, sem ter medo, sem dar de cara com um abismo entre pessoas de um mesmo país. Se lá fora conseguem algo melhor com pessoas tão distantes em língua e costumes, a gente precisa conseguir aqui, pelo menos, com quem só fala português.