Cantar, ainda mais no Brasil, é um pouco como passear por uma corda bamba. É preciso equilibrar beleza, interpretação, malandragem, sentimento, técnica, mil coisas que caso a caso se mostram a cor que a música tem a ganhar. É nessa que tem gente que balança, balança, e no vai-e-vem sai com mais aplauso do que o outro que passou fácil e sem vacilar pelo barbante da voz. Daí porque nem sempre um Milton Nascimento, um Emílio Santiago ou um Zé Renato, pra citar três cantores do primeiro time se olhados só pelo quesito técnico, vão dar coro em um Chico Buarque, em um João Gilberto (mesmo que vindo de uma escola de coral), em um Caetano. Não necessariamente um é melhor do que outro, e mais ainda: um não mata o outro.
      Cantar é livre, e o êxito está na singularidade. Todo mundo tenta, é um pouco como jogar bola, não há quem não se imagine fazendo, quem não dê palpite. Com o auto-tune, então, que ajeita eletronicamente a afinação, essas discussões ficam sem fim. Proibido, praticamente, só classificar qualquer comportamento de anti-musical. Lição de maestro.
      A história da música popular brasileira foi de graves e agudos sustentados nos rádios dos anos dourados até ser sacudida pelo din-din-don-dom de certo João, como todo mundo sabe, há cinquenta anos. Depois disso, ficou aberta a porteira para cada um achar o que quiser do certo e errado do canto. Mas ficou aberta mesmo? Aberta escancarada? Auto-tune é crime?
      A voz é, justamente, a grande crítica que recebe o Do Amor. A ficha corrida dos integrantes lhes dá segurança na parte instrumental, mas não salva nenhum deles da desconfiança dos ouvidos privilegiados do brasileiro. Não serão os últimos a terem que convencer uns e outros do seu valor. É a penúltima parte da entrevista, as outras estão aqui, ali, acoláe alhures.


sobremusica: Mas então mudando de assunto. O Do Amor deu as caras, pediu pra tocar, foi pra São Paulo, entrou na roda de festival, começou a ter repercussão, vocês a reagirem ao que as pessoas falam…
Marcelo Callado: O [festival] Humaitá Pra Peixe foi importantíssimo nisso, foi o primeiro festival que a gente fez.
sm: Arrã. Vocês já tinham feito show com o Carne de Segunda também, já tinham visto a repercussão na época… e eu ia fazer uma pergunta, mas vamos então mudar: como vocês comparam o Humaitá Pra Peixe do Carne pro de agora, do Do Amor? Você [Benjão] tava no Humaitá do Carne?
Gustavo Benjão: Tava, claro. Foi em 2002? 2002. [Foi em 2003].
MC: Porra, a diferença é que o Carne de Segunda no Humaitá não foi um show bom. Pra começo de conversa. Mas não foi bom pra banda. A galera gostou, mas a gente não tava em um clima bom, já tava meio estranho. A diferença é que pro Carne foi mais um show qualquer. Acabado o show, neguinho não fez nada, não agitou nada.
GB: É, muita gente falou bem, Charles Gavin adorou o show…
MC: Mas neguinho não correu atrás de porra nenhuma. A gente não conseguiu nenhum outro show em festival depois daquilo. E por culpa nossa. Não foi culpa de ninguém, foi culpa nossa. E no Do Amor foi o inverso.
GB: Foi tipo: fazendo o Humaitá Pra Peixe, chegamos num degrau aqui, e agora vamos pra outro. Na verdade, tem uma coisa que é que a gente tava muito mais consciente do que a gente tava fazendo, até por momento da vida mesmo.
MC: Claro.
GB: Mais consciente do show que a gente tava fazendo ali com o Do Amor do que com o Carne de Segunda. A gente sabia que ia ser um festival importantíssimo pra gente, que ia ser do caralho tocar no festival, que ia abrir portas.
MC: É, ia sair matéria, ia não-sei-o-que. A diferença é essa, a gente não tá tratando a parada como uma brincadeira. A gente trata como uma brincadeira, sim, mas… como é mesmo aquela frase que o Gabriel sempre fala? A brincadeira pode ser…
GB: Tô pensando… Não, é o Ruivo [Rodrigo Amarante]: A brincadeira é a coisa mais séria do mundo.
MC: Pois é. A gente trata…

sm: Tem mais um: o Chico Science falava que o mangue bit é diversão levada a sério.
MC: É isso que a gente quer.
GB: Exatamente.
MC: Mas agora a gente tem essa consciência, sabe? Essa ciência de que, porra, vamos fazer o show bonito porque vai ser importante, vamos lá, vamos correr atrás, se saiu matéria vamos fazer um mailing, com release, vamos mandar pra não sei pra onde. Fulano tali? Vamos falar disso, falar daquilo. Sabe?

sm: O release ou o anti-release? [eles apresentam os dois no myspace]
MC: Éim?
sm: Vocês mandam o release ou o anti-release?
MC: A gente manda os dois, cara.
GB: Já saiu várias vezes aquilo como se fosse uma parada séria, cara.
MC: Por exemplo, a gente fez o lance do release e do anti-release antes de sair pra viajar com o Caetano na Europa. E a gente levou os dois.
GB: Por isso que tem uma versão em inglês. Minha mãe que é tradutora passou pro inglês. Me ligou várias vezes pra tirar dúvida: como seria Keidânia em inglês? É uma porra de um nome que eu sei lá qual é, porra. Porque na verdade essa parada que ele falou do Ruivo, de ser uma brincadeira que é uma coisa séria, é porque a gente brinca mesmo com a parada, mas leva a sério.
MC: Não é deboche, mas tem um pouco também. É deboche sério. Eu falei um negócio com a Aline outro dia que era muito bom… Deixa eu me lembrar…

sm: Mas eu ouvi falar de um cara que foi entrevistar vocês e perguntou se a banda era um playground e vocês não gostaram.
MC: Foi você mesmo, porra. Foi você, pro site do Humaitá Pra Peixe.
sm: Rerrê… Então.
GB: Foi uma coisa que a gente não entendeu muito bem, o playground. É uma brincadeira…
MC: Não é uma brincadeira.
GB: Mas não é uma brincadeira. É muito sério.
MC: A gente quer viver da banda, cara.
GB: Mas eu respondi isso, inclusive. É isso, brincadeira é uma coisa muito séria. Porque na verdade, o playground… o que me deixou incomodado na pergunta é que o playground você vai lá, brinca e foda-se.
MC: E isso é que não é.
GB: O Do Amor não. A gente pode ir lá, mas é a nossa casa. A gente brinca dentro da nossa casa, e tem um monte de responsabilidade. A gente brinca, mas a gente limpa, a gente arruma, é bem isso. Não é playground, talvez seja o quintal da nossa casa.
MC: É bem isso aí. É bem isso.
GB: É um quintal…
MC: Não é quintal não. O Do Amor é a nossa casa.
GB: E a gente cuida, a gente arruma… Não é só um playground.
MC: É isso. Explicado é isso. Porque se você botar assim [que é um playground], parece que é assim: os caras trabalham pra caralho lá com o Canastra, Caetano, Los Hermanos, e o caralho, e no Do Amor eles mijam ali. E não é isso.
GB: Na verdade, eu nunca trabalhei tanto por um trabalho meu de banda quanto eu trabalho no Do Amor.
MC: Nem eu. E trabalho de tudo, sabe? De mandar scrap, de ver não sei o que. É um trabalho de produção.
GB: Muito do que a gente já fez até hoje é trabalho de mandar email pra produtor, de entrar em contato: tamos aí, e tal. A gente passa o dia fazendo isso, todo mundo passa o dia fazendo isso. Atualizando comunidade.

sm: Todo mundo faz orkut, myspace?
GB: Um pouco. O Marcelo cuida mais do orkut… Eu passei até a titularidade pra ele.
MC: Eu e o Bubu cuidamos mais dessa coisa de Internet. Mas não há uma divisão.
GB: Não há uma regra pra nada.
MC: Já perguntaram: vocês não tem um vocalista fixo, como é que é isso?

sm: Pois é: eu queria falar disso.
MC: Deixa só eu ir no banheiro, minha vez. //

sm: Mas voltando. Você falou ali de muita gente comentar que não tem um vocalista [fixo], e tal, e quando eu perguntei sobre o momento de vocês terem entrado na roda e mostrarem o trabalho e começarem a ouvir repercussão e reagir, eu queria falar sobre a maior – talvez a única – crítica que vocês recebem, que é sobre o vocal. Todo mundo fala que falta um vocal, e quem defende fala que não, que é esse mesmo porque é linguagem, e não sei que…
MC: …besteira.

sm: …que é estética de terceiro mundo, tropical. E quem critica fala que a banda é muito boa, mas é de músico. Precisa de vocalista. Então, se tem mesmo essa repercussão, qual é a reação?
MC: A reação é concordar com a repercussão. Porque tem o seguinte: a gente realmente não é uma banda de vocalista, e ninguém é um cantorzaço assim no sentido… sentido técnico da palavra. A gente trabalhou muito mais como músico instrumentista do que como cantor, a nossa vida inteira. Mas a gente quer cantar. A gente tem essa ciência de que a gente não canta tão bem, que a gente precisa se agulhar em cantar: todo mundo sabe disso na banda, mas ao mesmo tempo tem possibilidade de a banda ter um vocalista. E não tem possibilidade de agora ter um só vocalista na banda, entendeu? Cada um vai cantar – não é nem que cada um vai cantar suas músicas – mas cada um vai cantar. Porque também não é uma regra na banda que cada um tem que cantar suas músicas. Isso é bobagem. O Gabriel, por exemplo, canta uma música minha. Normalmente, cada um canta a música que compõe. Normalmente. Mas não é uma regra. E assim, a gente precisa melhorar o vocal, é uma auto-crítica nossa, mas a gente também tem ciência de que é maneiro a gente cantar nossas músicas.
GB: Claro. Eu concordo em partes. Eu acho que tem um lance que a gente realmente não é uma banda de cantor, não tem um grande cantor. Mas acho que justamente isso é uma característica fundamental na banda, sabe?
MC: Eu não concordo com isso, não, cara.
GB: Porque a gente trabalha muito as músicas, mas talvez não trabalhe – tá dentro da auto-crítica – talvez não trabalhe tanto o lance da voz quanto o lance do instrumental. E a gente acha que isso… tá tudo bem, também, sabe? É uma coisa que… é uma fórmula que também não precisa ser a ideal.

sm: Mas isso é assumido como estética?
MC: Não. Não. Não é assumido como estética, não.
GB: Como estética como assim?
MC: Não é. A gente não quer cantar mal.
GB: Eu não acho que a gente cante mal.
MC: Não, mas não é isso que ele perguntou.
GB: Eu só não acho que a gente seja um grande cantor. Nenhum de nós.
MC: Não, mas o que ele perguntou foi o seguinte: a gente não quer cantar mal de propósito. Não é isso?

sm: Mais ou menos. Deixa eu ilustrar um diálogo de que eu participei porque eu acho que é muito bom. Tava… Todo mundo eu conheço, então vou citar. Tava o Bruno Maia, que faz o site comigo, o Bernardo Palmeira do [selo] Bolacha, e o Berna Ceppas.
MC: Arrã.
sm: Aí, o Bruno e o Bernardo falaram: porra, a banda é muito foda, mas não tem vocalista. E o Berna falou: pô, cara, vocês não entenderam nada. E eu fui e falei: a banda é isso aí, não tem que inventar em cima disso.
MC: É isso mesmo.

sm: E aí ficou esse diálogo, cada um defendendo um lado.
MC: Eu concordo com você e com o Berna.
GB: É, pois é, a gente sempre…
MC: Só que dentro disso a gente tem que melhorar nossas vozes, só isso.
GB: Ou melhorar o instrumental. A gente tá querendo sempre melhorar alguma coisa. Eu não acho que o instrumental, assim, também seja do caralho. Eu acho bom…
MC: Mas é melhor, a gente tem mais facilidade de tocar do que de cantar.
GB: Tem.
MC: Por tudo, pela nossa história, a gente cantou muito menos do que tocou. Todo mundo canta muito menos do que toca. É totalmente normal isso. Agora é que a gente tem uma porra de uma banda fazendo show pra caralho, cantando pra caralho. Porra.
GB: Mas eu acho que tanto você tem razão de que no vocal a proposta é essa, quanto o Berna tem de que talvez nêgo não entenda. A gente quer fazer um negócio que não precise ter o grande cantor.
MC: Não tem ninguém que cante pra caralho. Mas também ninguém quer cantar e pagar mico.
GB: Não, eu quero cantar pra caralho. Assim como eu quero tocar pra caralho. Mas não acho que isso está atrapalhando. Eu não me acho incapaz cantando, assim como eu não acho ninguém incapaz da banda cantando.
MC: Não, ninguém acha, também não é isso.
GB: Eu acho que isso tá dentro da proposta do momento que a gente faz. Eu acho que ali tem muitas outras coisas além da coisa técnica da voz, sabe? Tem a coisa da letra, do astral, da música…
MC: Do astral do show. Tem muita gente que diz que Bob Dylan não canta nada. Porra. Chico Buarque. João Gilberto, que canta com essa voz nhenhenhé.
GB: Isso é o paradigma que a gente vai quebrar. Tô sendo prepotente agora.
MC: É diferente uma coisa de outra. Outra coisa é chegar no show e cantar tudo peidado, tudo desafinado. Querendo cantar afinado cantar desafinado, entendeu? Isso não é maneiro.

sm: Tem uma coisa que eu penso muito, assim: vocês são pessoas que compraram LPs de música brasileira, correram atrás da música brasileira, coisa e tal. Da segunda metade do século pra cá, isso tudo passou por uma revolução que começou em João Gilberto, foi pra Tom Jobim, Chico Buarque e por aí. João Gilberto foi o cara que mudou o jeito de cantar, acabou com os cantores de rádio, Agostinho dos Santos [MC: Francisco Alves?], etc. Então, de João Gilberto pra Tom Jobim, um maestro, pianista, nananan, mas que queria cantar. Vinícius, poeta, mas que queria cantar. E ali naquele momento, tem toda uma repercussão que eles vão responder com Desafinado. Aí vamos…
GB: Aliás Desafinado é uma das coisas mais desafinadas do mundo, aquela voz ali.
sm: Aí é um fast forward e a gente vai pra [Marcelo] Camelo, que até melhora, mas não apareceu por causa da voz, Mombojó que não tem um grande cantor, Otto e toda a música pernambucana de 90 pra cá. E dá pra ficar citando.
MC: Claro.
sm: Novos Baianos não tinham essa preocupação, e tal. A questão da voz na música brasileira é uma questão que vocês têm em mente na hora de compor, e até na hora de escutar som, de pesquisar?
MC: Não.
GB: Nem um pouco.
MC: Nem um pouco.
GB: Porra, cara, nem um pouco. Entrando numa outra questão, eu acho até que isso é uma coisa séria na música brasileira. A necessidade de ter uma figura central. E da necessidade de ter um grande cantor. Claro que o Brasil é uma terra de grandes cantores. Obviamente. Até hoje, o Brasil tem grandes cantores…

sm: Mas até, vamos dizer, o grande cantor brasileiro, o rei, que é o Roberto Carlos: é um cara que canta com o nariz.
MC: Exatamente.
GB: Ele não tem nenhuma técnica.
MC: Ele é afinado.
GB: E ele nem é o cara mais afinado do mundo, nem o mais técnico. Mas talvez seja um dos maiores intérpretes que o Brasil já teve, quer dizer, intérprete das músicas dele. E o João Gilberto é outro, sabe?
MC: Mas isso é um mérito até maior, não é só o de cantar.

sm: Mas a minha pergunta é justamente essa, a importância do cantar pra música.
GB: Eu, pelo menos, como compositor, a partir do momento que eu faço uma música, eu penso muito no como eu vou cantar aquilo, sabe? Mas eu acho, às vezes, que você não precisa estar preso a um cantar técnico pra você… Na maioria das vezes, quando se escreve uma música, eu prefiro muito mais passar o que eu tô querendo falar, e que prestem muito mais atenção na minha letra do que na minha técnica. Acho muito mais relevante, e até como ouvinte, eu procuro sempre escutar o que a pessoa tá falando. Até quando é em outra língua, em inglês. É uma coisa mais lírica, sabe? Eu acho um saco essa coisa de cantoras, de bossa nova, de quiquiriquiqui [faz uma escalinha], que é uma porra que não diz nada, sabe? E quando chega a um João Gilberto, tem muito mais autenticidade do que um que canta pra caralho. Eu sou muito mais influenciado por um cara que por vezes canta pior do que por um que canta muito. Eu gosto de cantar, quero cantar, sempre cantei em casa, canto pra lá, canto pra cá, tô no carro e tô cantando, tô no banheiro e tô cantando, é uma coisa natural do ser humano. Todo mundo canta, cara. A coisa técnica é uma exigência das pessoas que tão acostumadas, é uma exigência crítica. É lógico que existe um denominador comum entre fazer certas coisas que cabem e a desafinação que não cabe. E dentro do que a gente faz, acho muito coerente. Eu não faço mea culpa nenhuma. Pretendo melhorar, mas não acho um ponto contra a gente, sabe? É um dos elementos da gente.
MC: Eu discordo um pouco, porque eu faço um mea culpa, sim. Acho que tem que cantar melhor, a gente podia ter uma preocupação com voz do jeito que tem com instrumento. E acho que tem que ter isso um pouco, mas concordo que ninguém quer ser o Tom Jones da parada. Todo mundo sabe que tem coisas mais importantes [pra gente] do que ser tecnicamente um cantor perfeito. E tem desafinações e climas que são impagáveis. Aí, abaixo o auto-tune, assim. Sei lá: Moraes Moreira cantando lá as músicas dele, quando ele dá as desafinadinhas, se não fosse aquilo perdia metade da graça. O Gustavo tem isso direto, sabe? É natural do cara. Eu tenho isso, ainda mais cantando e tocando bateria. É um troço desumano.
GB: Só o Phil Collins.
MC: O Curumin faz isso muito bem. Toca e canta pra caralho, mas ele sempre tem as músicas ritmadas, né? [demonstra batendo na mesa]
GB: Porque a gente tem uma parada também de fazer música também, por tudo que a gente já ouviu, de fazer um caminho melódico diferente da harmonia. Às vezes sai.
MC: Isso, aí divide as vozes, sabe? Abre uma terça…
GB: A gente sempre procura fazer coisa que necessita de técnica. Mas não deixa de compor também, sabe?
MC: É por isso que eu faço uma mea culpa, até. Por neguinho ser tarimbado musicalmente, a gente tem idéia de fazer coisa, abrir voz e isso exige. E a gente pode fazer bem feito, mas pode ficar uma merda. Mas a gente não tá a fim de uma parada burocrática. O maluco canta “Eu também gostaria…” [entoa Ter Uma Banda] e o outro responde lá embaixo “Eu também gostaria…”, e isso é uma parada que é feito pra ter essa voz. Aí nêgo fica: porra o cara tá cantando com uma voz esquisita, que porra é essa que ele tá fazendo. E isso é bobagem.
GB: Inclusive eu acho que essa música é uma que eu canto melhor, até. Porque rola um lance…

sm: Eu não sei se vocês vão se lembrar, mas na apresentação de vocês do Humaitá Pra Peixe, eu falei no texto sobre essa música. Pra mim, é a carta de intenção da banda.
MC: É pode ser. Na verdade, eu concordo com o Gabriel, mas toda música tem a cara da banda.

sm: Mas calma aí, eu não falei que era a música de trabalho da banda.
GB: Não, é que representa bem a banda.
MC: Eu entendi, eu entendi.
GB: Na verdade, a gente tem um limite de até onde a gente enxerga a coisa, porque a gente tá de dentro. Eu acho que tem essa coisa de enxergar diferente. Por exemplo, pra cantar, talvez eu enxergue em outras bandas e não enxergue na gente. É muito natural pra gente cantar as nossas músicas daquele jeito e a gente não enxerga como pesando contra. O mombojó por exemplo…
MC: Nação Zumbi, que eu sempre achei a melhor banda do Brasil.
GB: É, mas aí eu acho que sempre teve um lance de não ter o grande cantor… O Chico Science não era um grande cantor, mas ele era de um carisma impecável.
MC: Mas sei lá, o vocal do Jorge Du Peixe me incomoda um pouco.
GB: Não me incomoda, não.
MC: Me incomoda um pouco. A banda é incrível e tudo, mas tem uma coisa meio monótona de zezezê, sabe? Mas eu tô sendo crítico de uma forma que é o que ele falou, de dentro é mais difícil. Mas eu tenho essa auto-crítica. A gente tem que melhorar.