Decisões não são só tomadas e pronto, precisam ser sustentadas e reavaliadas, reafirmadas, redesenhadas, precisam ir além de um momento conclusivo. A esse passo adiante, chama-se postura. A formação do Do Amor, como acompanhamos aqui, ali e acolá, não é a de uma banda como outra qualquer: tem mais de riscos e de recompensas. Tudo bem que se tudo der errado, basta voltar a se dedicar a projetos alheios (o que nem foi 100% interrompido, é evidente) com uma lição na bagagem, mas ainda assim há de se convir que poucos projetos no cenário atual começam tão comprometidos com tanta coisa em volta e implicam em tantas renúncias, ou sacrifícios. Enfim, escolhas.
      Ver o que se passa pela cabeça de um dos guitarristas e pelo baterista do Do Amor é ter a oportunidade de refletir sobre um assunto abordado no texto sobre o Companhia Itinerante, e que ainda deve ser abordado em mais textos adiante, por aqui. Trata-se da influência do Los Hermanos em quem tem entre vinte e trinta anos. Se não foram os quatro cariocas da PUC que apresentaram o samba à geração, o que certamente não foram, é fato que a banda teve um impacto muito forte ao mostrar que há possibilidades outras na relação com o samba (sem confete), com o hiper-romantismo (ser cool), com a barba (em um sentido figurativo e metafórico, de livre entendimento).
       Além do fato pouco desprezável de Bubu ter sido um quase Hermano na estrada, o Do Amor assistiu de perto por meios mil essa tal reaproximação – sob padrões próprios, o importante é isso - ao samba de Novos Baianos e de Chico Buarque, e diria até de Caetano Veloso (e de Dorival, e de Noel, e de). Aprendeu de perto qual postura lhes despertou para ser também uma banda disposta a um público e uma proposta de música que está em algum lugar lá fora, ainda longe de pronta ou preparada. Disposta a perseguir um caminho longe do extremamente fácil, mas perto de algo pessoal, característico não só dos quatro do Do Amor, mas à época deles.
       Por isso, surgem na conversa palavras como concessão, segurança, autonomia, abdicar, coragem. Junto a elas, vêm dúvidas e uma troca de visões que só mostra que certeza aqui não é garantia. O percurso, dá pra se concluir, tem também momentos de contraditório à espreita. Mas arriscar, e essa atualização aos dias de hoje em muito cabe a Los Hermanos, é sim a postura a se afirmar.

sm: Você acha que existe uma coisa do artista ser refém do público? Esse risco, do artista poder virar refém do público?
GB: Mas de que maneira?
MC: Querer tocar pra agradar o público. Pra chamar público.

sm: Tem um exemplo que eu acho muito claro, um cara que eu acho foda, e acho que o que ele toca é pior do que o que ele tem pra mostrar, que é o Moyseis Marques, sambista da Lapa. Tocou no Humaitá Pra Peixe. Ele fala o seguinte: eu sou cantor da noite, mas eu quero virar artista. Mas enquanto eu não deixar de ser cantor da noite, eu tenho que tocar clássicos, um Paulinho da Viola, Eu Sou o Samba. E esse é um incômodo pra mó galera, mas talvez ele seja o cara que assuma isso, que verbalize isso, na Lapa.
MC: Maneiro ele falar isso, maneiro.

sm: Mas a minha pergunta é a seguinte: existe isso fora do samba, ou é um discurso só do sambista carioca? Só pra explicar mais, tem outra coisa ótima que o Moyséis fala, que é que ele quer ser artista de MPB, não sambista. Porque o cara de MPB canta samba, forró e o que quiser, o sambista se canta forró vão perguntar: peraí, porque tá gravando forró?
MC: Cara, primeiro que eu acho essa parada meio estranha, assim. Quero ser samba e quero ser MPB. Eu já acho estranho do começo. Mas cara, o que eu posso te responder é que a gente nunca vai fazer um show pra agradar um certo tipo de platéia, um certo tipo de público. Você não vai ver a gente fazendo isso, sabe? A gente é autoral mesmo, sabe? A gente acabou de fazer um show no Casarão, em Porto Velho. Só tinha banda de rock pesado.
GB: É, só tinha metal.
MC: E a gente falou: vamos fazer nosso show, foda-se. E foi do caralho. Sabe qual é? Os maluquinhos foram subindo um na garupa do outro pra dançar o Carimbó [o título de uma das músicas do Do Amor].
GB: É o risco que se corre. Quando você assume fazer a parada que você quer e que você acredita, você corre riscos, obviamente. Mas é aquilo, você tá jogando.
MC: E quando vem a recompensa, vem muito melhor, né?
GB: É, você tá jogando. Quando você tá dentro de um…, faz aquela concessão toda pra agradar um público pra poder sobreviver daquilo, obviamente você tem mais segurança. Mas aí é o seguinte: a gente já toca há muito tempo, e sabe muito bem como é que é isso. A segurança não vai vir daí porque no dia que o samba quiser ir embora da Lapa, essa galera tá fodida. Se entrar um metal na moda, a Lapa virar metal, acabou essa porra. Só vai ter banda de metal e neguinho que investiu porque era o negócio que tava dando público… Quando você começa a fazer concessões, você abre pra uma possibilidade que é um mercado que tá rolando. Se o público olha pro lado e diz que aquilo ali é mais interessante, ele vai atrás, não vai pensar duas vezes. Ele tá a fim de ver um produto bacana, que ele vai se divertir, vai fazer a noite dele agradável, e ele vai atrás.

sm: Mas deixa eu voltar na minha pergunta: existe sempre o risco de virar refém do público? O público é um ente, um elemento, um sei-lá-o-que que…
GB: …Existe. Mas a partir do momento que você faz assim [bate no peito], que nem é uma postura assim, nem é uma petulância…

sm: É um pouco a função do artista?
GB: É a função do artista dizer: o que eu faço é isso aqui. Quem tem que ser refém de alguém, naquele momento, é o público. Tem que saber fazer o público. Saber pegar a atenção do público.
MC: Pegar a atenção do público praquilo que você faz, e sabe que você faz bem.
GB: A gente jamais conseguiria fazer um show pensado pra agradar, é contra a nossa natureza. Eu, pelo menos, eu acho que não conseguiria. Fazer uma coisa que todo mundo estivesse gostando. Eu acho que é uma coisa que [muda a voz] é a função da arte…
MC: Não é nem isso, é claro que passa na nossa cabeça estar tocando pra mais gente, estar ampliando o público.
GB: Exatamente.
MC: Porra, estar em todos os veículos. A gente é uma banda, a gente quer viver disso. Mas não passa por a gente ter que fazer determinado enquadramento pra isso acontecer, pra isso chegar pro público. A gente acha que do jeito que a gente vai fazendo, do jeito que a gente vai criando, compondo, se portando, essa coisa vai acontecer. Naturalmente.
GB: É. E voltando pro que eu tava falando, é muito subjetivo você fazer certas concessões pro público. Aquilo ali faz você atingir determinado público. Claro que determinadas coisas e determinados tipos de música e determinadas palavras atingem mais pessoas do que outra. Mas é muito subjetivo e você às vezes não consegue. Tem gente que tem facilidade pra isso.
MC: Cara, tem um exemplo muito maluco. A gente fez um show em Goiânia. Aí tinha, lá no backstage, uma banda de psychobilly. Uma loucura. Os caras eram figurassas, de Goiânia. Não, de Florianópolis. Sei lá. Se chamavam Big Nitrons.
GB: Eu acho que eram do Floripa [são de Santos, SP].
MC: Porra, acabou o show da gente, a gente tava conversando com a galera, e vi dois caras da banda vindo na minha direção. Fodeu, né? Os caras vão falar filha da puta, que parada é essa de axé, aqui é festival de rock, não-sei-que… Bicho, os caras viraram – psychobilly, né? Não é nem topete, é uma cabelo rapado aqui do lado –: aí, do caralho.
GB: Aliás, é foda, eu ouvi a banda no myspace, do caralho. É maneira a banda, tem uns timbres. Sonzão.
MC: Os caras pagaram um pau pra gente que eu não acreditei. Falei: caraaalho. A gente chegou aqui no Goiânia, tocou lambada, e tocou mesmo // bate a fita //
Os psychobillies gostaram da gente, a gente não precisou mudar o nosso show pra agradar o público roqueiro de Goiânia. O público gostou do Do Amor do jeito que ele é. E aí, depois de bater a fita, a gente chegou no Los Hermanos [eu perguntei, na verdade]. E eu acho que o Los Hermanos não é refém do público. Eu acho que o Los Hermanos conseguiu uma parada muito legal, que foi uma autonomia artística perante a gravadora, e perante todo o público.
GB: Mas conseguiram manter o diálogo corrente com o público.
MC: Não: total. Mas assim, mas ficou um troço tão sinistro, que eles podem fazer qualquer coisa que o público gosta. Mas isso é outra coisa. É outra coisa.

sm: Escolheram público também? Tem um pouco isso? Porque eu me lembro de história de - eu não sou nem um pouco fã de Los Hermanos, mas acho a trajetória muito boa – e me lembro assim de um Planeta Atlântida, eu no Sul mas não no festival, e ter essa história do público interromper o show querendo Ana Júlia, tava ali pra ouvir Ana Júlia. E eles bancarem: não, peraí, vem ouvir o nosso repertório. E tocarem o repertório e lá no fim ter a Ana Júlia. Então, assim: tem uma coisa aí também de… de peitar público. Não tem outra palavra.
MC: Tem, tem… E é o contrário de ser refém do público.

sm: E nisso veio depois a história toda do Bloco do Eu Sozinho, que é mais uma peitada…
MC: Esses caras, eles têm um mérito que é absurdo.

sm: A gente conhece a história, a burocracia, a gravadora, o produtor, tirar o Chico Neves, nananan…
GB: Mas nem foram eles, né?
MC: Não foram eles…
GB: Foi uma parada difícil lá.
MC: Esses caras, eles conseguiram chegar no público deles, mesmo.

sm: Que é o que eu to falando de escolher, ou não?
MC: …Eu nem sei se passa por essa noção, eu acho que não é assim.

sm: Mas no fim das contas, é isso. O público do Planeta Atlântida só quer ouvir isso, e tem um outro pra se formar que vai ficar disposto a ser curioso, ouvir o que você tá falando...
GB: Exatamente.
MC: Exatamente, só que pra fazer isso você tem que ter coragem. Você tá abdicando de uma parada grande que pode te manter ali num lance… E isso é que é maneiro nos malucos. Se você chama isso de escolher público, eu acho que sim. Agora, não sei se a gente faz isso. Porque é o seguinte: a gente quer viver de música. Assim como eles fizeram. Mas a gente tem uma postura parecida no sentido de que a gente não quer abrir mão artisticamente das nossas coisas. Ainda mais hoje em dia, que não tem mais esse troço de gravadora; ainda tem, mas é uma coisa totalmente desmembrada, toda fodida. Cada vez mais o que você tem é autonomia sobre o seu trabalho. Então, a gente tá nisso, tá nessa de ter autonomia artisticamente. Quer mostrar esse trabalho do jeito que a gente quer. Se vier um público gigantesco do Planeta Atlântida, maravilha, só que a gente…
GB: Pode até vir, também, né? Por que não? Mas eu acho também que tem uma parada que é que esse trato com o público é um embate. Assim, você tem que chegar lá e arriscar de alguma forma. Ao mesmo tempo, não pode se violentar, pra poder conquistar, sabe? Não pode deixar pra trás tudo em que você acredita, tudo que vem ralando pra fazer. Eu acho que chega um momento ali que tem que escolher. Como tudo na vida, tem que escolher um caminho. Não quer dizer que não possa voltar. Mas acho que tem momentos em que tem que fazer opções, e que tem que fazer concessões. Fazer uma opção pra algum caminho significa também fazer uma concessão ali, sabe?
MC: A gente teve uma discussão, nós da banda, outro dia, sobre música de trabalho. Porra, o que seria uma música de trabalho, nossa? E o Gabriel falou: pra mim, qualquer música nossa é música de trabalho. E é mais ou menos, cara. Você vê nos shows que tem músicas que funcionam mais que outras. Se tiver que botar uma música num programa, alguma coisa assim, de repente é mais legal botar essa música do que outra. E ele falou não, não acho.

sm: Eu to lendo um livro agora, do Kind of Blue, do Miles Davis [livro escrito por Ashley Kahn sobre as gravações do disco do trompetista], sabe?
MC: A, eu queria ler.
GB: Maneiro, maneiro…
sm: Aí fala do [George] Avakian, que é um turco, filho de embaixador, gostava de jazz e foi morar em Nova Iorque, e por ser filho de embaixador ele fez contatos e foi parar na Mercury, que era a gravadora de jazz lá dos anos 60. E lá virou diretor artístico, e como produtor artístico teve como marca da administração dele – ou sei lá o que – era sempre ter uma música pra botar pra tocar onde ele quisesse, e o resto do disco livre. E até hoje, ele é uma referência, o show da volta do Led Zeppelin foi um show em homenagem a ele. [Eu fiz uma confusão danada aqui: na verdade, Avakian é russo de família armênia, e trabalhou na Columbia, essa sim a grande gravadora do jazz de 50 para 60. Foi ela que consagrou o lp como formato para venda de música, o que permitiu relançamentos no novo suporte que sustentaram boa parte das experiências dos jazzistas na virada da década. Ele acumulava as divisões de pop e de jazz da gravadora, daí a mentalidade do single e das várias parcerias entre jazzistas e intérpretes como Sinatra, Bennett e Mathis. Já o turco filho de embaixador é Ahmet Ertegun, que também não era da Mercury, mas da Atlantic. Ele também era um viciado em jazz, com importância na história da música americana, daí ter sido ele o homenageado pelo Led Zeppelin (e por Wynton Marsalis, Dr John, Eric Clapton, Phil Collins...)] Então assim, essa questão da música de trabalho tem um sentido até marcado na história. Mas é delicada…
MC: É delicada, é delicada. Porque, na verdade, eu concordo com o Gabriel. O lance artístico… a gente vai acabar sempre caindo nisso, mesmo que a gente se foda com a banda. Sempre vai tentar fazer um negócio que siga nossa intenção do disco. E eu acho que o público sempre vai vir com isso. E voltando à sua pergunta, eu acho que nesse sentido, faz sentido você escolher público. Não é escolher, mas é fazer aquilo que você acha pertinente com a sua arte. Mas cara, olha só: as nossas músicas são tão doentes que tem uma música, aquela Meu Coração, que é totalmente pop. Poderia tocar e ser hit num Planeta Atlântida. E por que não nesse público? A música é assim, tem refrão. É pop, é pop. Foda-se. Por que não pegar esse público? Ao mesmo tempo, tem outra que esse público não vai gostar. Quer dizer, eu pressuponho que não vai gostar, porque é mais esquisita. Mas daí tem outro público que gosta.

sm: Eu acho que mais do que um ‘não vai gostar’, é a questão de desafiar a prestar atenção. Vou dar um exemplo: eu trabalhei no Humaitá Pra Peixe, agora [a edição de 2008], assisti todos os shows da parada, e teve um dia que a escalação era Macaco Bong e Jay Vaquer. O [organizador e curador] Bruno Levinson subiu no palco e avisou: galera, eu sei que vocês vieram ver Jay Vaquer, mas agora é Macaco Bong. Queria que você assistissem, é uma banda nova, não-sei-que. E nêgo ouviu, a molecada que foi pra dar gritinho prestou atenção, bateu palma na hora certa. Não sei se saiu e comprou o disco [até porque não tinha disco ainda]…
MC: É, aí é que tá…
sm: Cara… Mas junto com isso, tem uma coisa que eu queria falar é que os grandes caras de hoje, Caetano e Gil e não-sei-que, em algum momento peitaram o público. É essa geração que quer tomar o poder? e etc.
MC: Claro. E peita até hoje. Porra, a turnê inteira que eu fiz com o Caetano é ele peitando público o tempo inteiro. É nêgo pedindo: Caetanôôo, toca Sozinho. Caetanôôo, não-sei-o-que. E ele nem aí, cara.
GB: Foi o que eu falei daquele negócio, que eu fiz uma analogia, uma metáfora do público da Lapa investir no metal. Da galera do samba ficar sem emprego. É justamente isso, se você enfeita, e não faz o que você quer, você vai estar fazendo parte de um esquema que pode mudar de lado. Que muda ao vento do mercado, isso é uma coisa muito volúvel. Você fechar o público é peitar o status quo, mas é difícil. E conta pra sua carreira como artista. Essa galera que surgiu com o Caetano, o [Jorge] Mautner, o Jards Macalé, os malditos, né? Talvez sejam os caras que não fazem concessões. O Caetano durante muito tempo também não fez concessões, e não faz até hoje. É um cara talentosíssimo, mas faz parte da natureza do artista você ir contra uma…
MC: Peraí, ele faz concessões também…
GB: Claro que faz. Muitas. Ele fez durante muito tempo.
MC: Mas é outro parâmetro…

sm: Cara, deixa eu ir no banheiro, preciso. //interrompo a fita//
sm: A gente tava nas concessões do Caetano. Rerrê.
MC: Faz.
GB: Durante a carreira toda ele fez concessões.
MC: Bom, isso é você que tá dizendo, bicho.
GB: Sou eu que to dizendo, sim.
MC: Ele fez Circuladô, pô. Noites do Norte.
GB: Noites do Norte é um disco que…
MC: Isso aí não é uma concessão. É um disco da carreira do cara. O que eu chamo de concessão é o cara às vezes fazer show que é pra levantar grana mesmo, sabe? É isso. E faz voz e violão. E não tem nada de errado no repertório que tem na cabeça dele.
GB: O que eu quero dizer, por exemplo, é que durante a década de 90 ele não fez concessões. Mas, quando ele fez o Cê, é uma ruptura mesmo. É quase peitar o público.
MC: Mas não tem nada a ver com negócio de concessão.
GB: Ele foi contra uma coisa que nêgo esperava.
MC: Não, não. Ele foi contra uma coisa dele mesmo. Mas ele foi contra uma coisa dele mesmo que era o que ele queria fazer antes, entendeu? Ele quis fazer.
GB: Ele foi contra a concessão que ele fez antes porque queria fazer. Concessão não é ruim.
MC: Mas isso não é concessão, Gustavo. A mesma coisa foi quando ele gravou um disco só com música americana. É a idéia artística do cara. E aí depois ele foi contra essa idéia. Mas tudo bem, não é uma concessão.
GB: É, não sei. Na verdade, o Caetano, eu acho, fez uma coisa talvez mais fácil pro público. E é do caralho. Eu gostei muito de Fina Estampa. Aquele disco lá que ele canta um monte de coisa em espanhol, ao vivo [Fina Estampa Ao Vivo], é do caralho. É genial. Mesmo o que ele faz que não é revolucionário é genial. Quando eu falava em fazer concessão ou não, é que ele fez uma coisa muito mais chocante, e que eu considero mais relevante artisticamente, no Cê do que no disco antes. Nos discos do meio da década de 90 até 2000. É o que eu acho.
MC: Tudo bem.
GB: É uma coisa de peitar o que rola, e talvez pro público comum e pra um monte de gente, o esperado era que viesse um disco pra ter música na novela. E ele não fez, fez outra porra.
MC: Posso falar? Tem uma porrada de gente que é fã de Caetano que achou uma bosta quando ele fez um show e um disco de música americana.
GB: Certamente.
MC: Uma galera pichou. Mas não porque achou bom ou ruim, mas por causa das músicas escolhidas.
GB: Mas isso é besteira, né? Pichar porque é música americana?
MC: E onde tá a concessão aí? Mó galera achou uma merda…
GB: É.
MC: Mas enfim. A gente já tá divagando, já tá…
GB: Concessões fazem parte, você tem que agir de acordo com o que você quer fazer aquela hora. Talvez aquilo vá com o que o público espera, talvez não. Em alguns momentos, você é taxado de oportunista porque fez aquilo ali. Se você quer fazer aquilo naquela época, que o público tá consumindo aquilo, tem mais é que fazer.

sm: É, tem uma parada que é o espírito da época também, né? É pegar o que tá rolando e trabalhar em cima daquilo com a tua marca. Tem a ver tanto com o Gilberto Gil quanto com o Daft Punk. Um é muito diferente do outro, mas são dois que acompanham a virada do século, do milênio. Não tem nada de condenável, são retratos da época que tão sendo dados ali.
GB: É.
MC: Claro.