O papo já é velho, mas não custa re-ilustrar. O artista mimado tá ficando pra trás, e cada vez mais é preciso estar a frente das próprias decisões: administrar carreira é também parte de uma nova obra artística. Há interesse do público por mais do que a música, e isso pode ser a foto roubada do paparazzi ou um proceder de negociação com o universo que envolve o tal “entretenimento”. O tamanho da infra-estrutura criada para levar à frente uma cara nova ou um ícone de mais de uma década de estrada, logicamente, vai variar – e não necessariamente o elemento gravadora estará fora em todos os casos. Mas ser só músico é pouco.
       Ao conversar com o Gustavo e com o Marcelo, do Do Amor, o papo balança por tempos de formação (que de certa forma me são comuns, temos a mesma idade, só outras galeras), por amizades e aventuras, e principalmente por decisões. Ao deixarem de ser os garotos bons músicos de um projeto experimental maluquinho com repercussão restrita para crescerem, eles podiam ter seguido cada um o próprio caminho. O sucesso já se desenhava para cada um deles.
       Todo esse percurso, essa vontade de tocar junto sendo aos poucos concretizada, foi o tema dos dois primeiros pedaços da conversa já publicada aqui e aqui. Agora, o papo começa a ficar mais sério e entra pelas decisões, e renúncias, de cada um para assumir o Do Amor como projeto de vida. É um momento de poucas respostas, mas uma certeza forte o suficiente para segurar nela o rumo de quatro cabeças.
       E no próximo capítulo da saga, vai entrar pelas posturas que eles se forçaram a assumir. Mas uma coisa de cada vez: às decisões, primeiro. Bom proveito.


sm: Tá, isso é uma coisa que eu queria perguntar. Pros quatro, o nome do Ricardo, do Marcelo, do Gabriel e do Benjão, os nomes são maiores do que o do Do Amor. Fica sempre um aposto, a banda dos caras do Caetano, a banda do Benjão que é guitarrista do não-sei-quem, não-sei-quem e não-sei-quem…
MC: Mas tudo bem, cara…
GB: No início teve muito isso lá da banda do Marcelo e do Ricardo que tocam com Caetano, do Bubu que tocou com Los Hermanos mas eu acho que isso tá virando.
MC: É, isso não vai deixar de ter por enquanto. Até porque a gente continua tocando com o cara.
GB: Não vai deixar de ter, mas eu acho que a gente vem fazendo essas coisas todas, e hoje em dia nêgo já olha pra banda antes de olhar pro Marcelo, pro Ricardo, pro Bubu e pro Benjão, sabe? A banda já tem um lance ali, e nêgo tá sacando, sabe? E é um pouco do que a gente quer, mesmo, sabe?
MC: Claro.
GB: A gente não quer aparecer como Benjão, o guitarrista que toca no Do Amor. Até porque é uma banda onde todo mundo compõe, todo mundo faz música…
MC: E a gente quer que a banda fique cada vez mais como prioridade.

sm: Deixa eu parar um pouquinho a banda e voltar pra quando vocês gravaram o EP, começou a fazer show, a ser falada e ter repercussão, e começou a cada um dos quatro ter que tomar decisões de sair do Canastra, sair do Nervoso, e tal. Como foi esse momento? Quem foi o primeiro a sair? Como foram as discussões, as conversas…
MC: Foi o seguinte: posso começar essa resposta?
GB: Pode, tá bom.

sm: Porque é lógico que não é fácil sair do Canastra, e no caso do Nervoso, tinha música tua [Benjão] no repertório do disco que vai sair aí…
MC: Não é nem um pouco fácil, cara. O Canastra fez aquele disco… /toca o celular do Benjão/
sm: Tocou o celular!
MC: Aproveita aí, cara.
GB: Alô.. [e se levanta]
MC: O que rolou foi o seguinte. Eu comecei a tocar com o Caetano e isso começou a atrapalhar muito o Canastra. Porque, ao contrário do Do Amor que era uma banda começando, o Canastra era uma banda com uma agenda de shows grande. O Renato [Martins] sempre produziu pra caralho a parada, junto com a Jane [Deluc, produtora], e junto comigo. Eu ajudei muito a produzir também. O Edu [Vilamaior] também, a banda toda agulhava. E ficou uma banda com muito show, uma banda do mainstream, assim. Isso em fazer show. As pessoas já conheciam, tinha um nome maior, viajava.

sm: Ganhou um concurso que foi muito falado…
MC: Ganhou, e teve o lance de gravar o disco, e ao mesmo tempo o lance do Caetano. Nêgo entendeu que o lance do Caetano, porra, é um trabalho. Ninguém ali ganha dinheiro com o Canastra. Tipo, o Fernando [Oliveira, guitarra] dá aula, o Edu [baixo] trabalha na vigilância sanitária, o Renato [vocalista] dá aula de português, o Madá [Marcelo Magdaleno, saxofonista] é arquiteto… e eu toco com uma porrada de gente. Então, eu já ganhava o meu dinheiro lá e ficou acertado isso. Só que o que aconteceu? Nesse meio tempo, o Do Amor foi crescendo, e chegou uma hora que eu tava voltando da turnê do Caetano, já tinha atrapalhado pra caralho o Canastra – porque por mais que nêgo entenda que é meu trabalho, na prática, atrapalha. Eu tenho noção disso, mas é difícil conciliar. Atrapalha a banda. Toda vez que eu não vou tocar, tem que ensaiar com outro baterista, tem que gastar dinheiro com ensaio, aí não sabe se o cara vai dar bolo ou não vai, porque ele pode ter uma outra proposta de uma outra banda que tá pagando mais, entendeu? E são sempre essas coisas, que somam estresse, e acabam estressando a relação, sabe? Entre uma galera que é amiga… E acaba ficando chato. Só que é muito difícil chegar e dizer: eu quero sair da banda pra quem eu ralei a bunda, e que eu me amarro. Sempre gostei de tocar no Canastra, adorava, gosto, acho uma banda do caralho. Acho o Renato um compositor sinistro, o Edu… adoro a banda. Só que chegou uma hora em que eu estava atrapalhando mais do que produzindo. E aí pintou o lance do Do Amor que é a minha música, é a minha banda. Mais do que o Canastra. E quando eu falei isso, nêgo me deu um chega-pra-lá. Porque o Caetano ainda vá lá, era uma parada profissa, não-sei-que, não-sei-que, não-sei-que. Mas, porra, agora ainda vai ter que ficar dividindo, como é que vai ser isso? E eu falei: realmente, vocês estão certos.
GB: E foi nesse momento que a gente viu que… Não é uma coisa de disputar, mas quando a gente começou a rolar uns esquemas de show legais, a gente começou a poder entrar num lance de ver que podia optar pelo Do Amor porque, além de tudo, vai valer mais a pena. Financeiramente, também. Então, a gente entra numa coisa de uma disputa que a gente pode priorizar mesmo.

sm: É uma parada que tá ali dada, não é tanto de entendimento, de aposta. É isso?
MC: É, tem uma parada que foi a pilha forte mesmo. Rolou o EP e a gente gostou, e neguinho pilhou mesmo. Falou: cara, é isso. Nossa banda é essa. A gente é músico, entende tudo por trás… E o fato de todo mundo na banda ser só músico, rola um entendimento melhor de ter que sair pra fazer um trampo, de ter que sair pra tocar com outro artista, e não-sei-o-que. E tem outra facilidade que é a seguinte: a gente, Do Amor, é a banda do Jonas. A gente, Do Amor, é a banda da Nina [Becker]. Então, assim, não fica aquela coisa de “só o cara não pode”. O esquema é mais fácil, entendeu? Não enfia a banda em situações ruins, sabe? Eu me lembro de eu falando isso quando tava na reunião em que avisei que ia sair do Canastra. Cara, além de tudo, tem essas afinidades, lá. E foi tudo bem, quando eu saí foi tudo tranqüilo. Talvez eu tenha demorado um pouco a ter tido essa atitude, sabe? Mas porra, banda às vezes parece um pouco casamento, sabe? Às vezes, não é sempre, mas às vezes parece. Não é fácil dar um pé na bunda. Não é nem pé na bunda, mas um tchau. Tu gosta da parada. E o Nervoso é a mesma merda, mesma história.
GB: Rarrarrá. E o Nervoso? É, eu saí. Na verdade, eu comecei a ver que… a gente não teve essa conversa, mas o Nervoso, mestre como sempre foi, ele falou…

sm: Já saiu de não sei quantas bandas…
GB: Isso, ele sabe muito bem como é, eu tive filho há pouco tempo, e chega uma hora que prioriza. Você estar numa banda independente quer dizer, você estar numa banda independente… Porra, os caras [da mesa do lado] falam alto pra caralho. Você estar numa banda independente quer dizer que você tem que investir, tem que comprar briga, tem que às vezes pagar o ensaio, tem que viajar e adiantar a passagem, sabe? E durante muito tempo, tendo investido do bolso… Sei lá, tocar com o Nervoso é aquele esquema: às vezes não ganha nada, às vezes tem que pagar umas coisas, às vezes rola um cachê mas é pra pagar os gastos, os ensaios que você fez. E aí eu comecei o lance do Do Amor, e eu precisava decidir. Fui tentando levar, fiz o disco lá, a gente fez um monte de arranjo, eu fui muito presente na confecção do disco do Nervoso que vai sair alguma hora, e tem três músicas minhas…

sm: Bloco Neguinho entre elas?
GB: Tem Bloco Neguinho, tem…
sm: Cara, acho que saiu do disco.
GB: Bloco Neguinho [regravação da música do Carne] não vai rolar, né? Mas essa era pra ser mais pop, é… Mas aí, rolou essa e mais duas músicas. E esse processo do terceiro disco [sem contar com o EP e com o de remix, é o segundo] foi uma coisa que eu me apeguei mais ainda ao negócio da banda. Foi difícil, cara. Foi um tempo investido, e mais um monte de coisa. E o Do Amor é onde eu boto minhas músicas com mais vontade, e mais à vontade. De colocar as idéias. E a parada rolou naturalmente, era o que tinha que ser.
MC: O Nervoso entende muito bem isso, cara.
GB: Eu fiz participação no show, um tempo atrás.
MC: É, rola isso. Na última temporada do Canastra no Estrela [da Lapa, no centro do Rio], eu já tava fora. Eu toquei, mas já tava fora.

sm: Em janeiro, né? Tava anunciada a entrada do Barba, já. Mas Do Amor, vamos voltar pro Do Amor. Tem duas questões que eu queria falar muito. A primeira é que eu recebo os emails de vocês, e vejo que vocês tocam muito mais em São Paulo do que no Rio e por aí. Queria que vocês falassem disso, porque vingou mais, ou rola mais, em São Paulo?
MC: Eu acho o seguinte: no Rio, rolam duas paradas. Eu acho que os acordos pra se tocar nas casas do Rio não são muito bons. Além de ter pouco lugar, não acho que tenha muito lugar, mas os acordos não são favoráveis aos artistas. Segundo, eu acho que rola uma preguiça na galera de buscar novidade.

sm: Da galera: público? Ou produtor?
MC: Não, da galera: público.

sm: Porque são duas coisas que andam juntas, mas que são diferentes…
MC: É, é. Mas eu não sei…
GB: Eu acho que é um público comum…
MC: …Eu sinto pouco público mesmo…
GB: …porque existe um público médio, que são pessoas que não são tão…

sm: Não é quem gosta de música…
GB: …não é quem gosta de música, é quem gosta de sair. E em São Paulo, talvez as pessoas sejam mais abertas a ir para um lugar, para um show, de uma banda que elas não conhecem… Eu fico pensando isso, sabe?
MC: Acho que lá, nêgo é mais interessado. Nêgo vai no show, pode até não se balançar no show, sabe? Mas nêgo sempre fica assistindo e criticando. Em São Paulo, nêgo vai no show, mas vai desconfiado. Mas tem curiosidade de ver, sabe? E em outros lugares, como Goiânia, que é uma loucura, Salvador.

sm: Loucura de público?
MC: Não, não, não. Loucura de galera querendo ver o show. É show de banda de rock nova? Vamos lá. É uma festa maneira? Tem isso também, se atrelado a uma produção boa, dá mais certo.
GB: Tudo são circunstâncias, né?
MC: É, também. O lance da gente em São Paulo foi o seguinte: foi uma idéia da Nina Cavalcanti, ela mora em São Paulo, e ela conversou com o dono do SP, ele ofereceu uma condição legal, primeiramente, e a gente foi e fez um show do caralho. Tinha pouca gente, mas a galera que tinha era uma galera importante.

sm: Aquela onda Joy Division, né?
MC: Por aí.
sm: Seis pessoas viram o show, mas uma saiu de lá e montou o Sex Pistols, a outra…
MC: Por aí, por aí. Nada virou ninguém por nossa causa, pelo menos até agora, mas tinha o Fabrício [Nobre] do Bananada, tava o cara do Nação Zumbi, uma galera assim, um monte de produtor pequeno. E isso foi abrindo…
GB: E eu acho que tem uma parada de São Paulo, que São Paulo tem uma coisa, talvez pelo frio, por condições geográficas, pela rotina da cidade, eu acho que eventos culturais são mais importantes mesmo do que no Rio de Janeiro. Aqui, o cara talvez vá pro Humaitá Pra Peixe porque é o Humaitá Pra Peixe, até mais do que pela banda. Em São Paulo, o evento se sustenta não porque tem um nome, mas porque é mais fácil, e mais rápido do que no Rio. Se a gente começasse no Rio, e fizesse a mesma coisa que em São Paulo – toda semana em tal lugar – a gente ia se foder, cara. Um negócio que a gente, todo mês, a gente tocou no Studio SP, com público tal, e correndo atrás de contato, pagando alimentação, valeu muito a pena porque a gente conseguiu ir formando público. Porque tinha gente interessada nisso, sabe? Mas aqui, a gente não ia conseguir fazer dois shows assim. O primeiro ia ser vazio, e se o segundo não bombasse de um jeito que superasse todas as expectativas, a gente não ia fazer o terceiro. Não ia ter onde fazer.

sm: No Rio mesmo tem exemplos que não são assim, tipo a Orquestra Imperial. O primeiro show deles foi uma segunda-feira, no Ballroom. Ninguém…
GB: Exatamente.
sm: O segundo deu, sei lá, seis pessoas. E hoje a Orquestra Imperial toca por aí, onde quiser.
MC: Mas é foda, é um caso a parte, né?

sm: Cara, é um caso a parte, mas porque existia o Ballroom, que também botou o Cabruera enchendo de gente na segunda-feira… E Reggae B, em meio de semana. Não tem também que ter o produtor, a casa, que banca, que segura a onda, que aposta em temporada…?
MC: Claro, claro.
GB: Aqui no Rio, talvez não tenha tanto isso. Não tem um lugar que banque.
MC: Mas por exemplo, lugar bom. Lá em São Paulo tem lugar pra caralho pra tocar, tem a Berlin, tem aquela casa Belfiore, tem a Fun House, Studio SP, Milo Garage.

sm: Mas falando de música em geral, aqui no Rio tem o Carioca da Gema, tem a Lapa toda.
MC: Tem, mas por exemplo, a gente não consegue tocar no Carioca da Gema.

sm: Arrã. Mas porque é só samba? Ou melhor, porque é só um tipo de samba, que é aquele de regravação, de clássicos…
MC: Cara, a Lapa é incrível. Pra quem tá tocando choro e samba, hoje em dia, é uma coisa extraordinária.

sm: Pois é, mas que samba e que choro?
MC: Ué, mas não tem casa de samba e de choro direto lá na Lapa?
sm: Cara, tem. Mas tem gente reclamando que não toca, inclusive Fundo de Quintal, Leci Brandão…
MC: É mesmo? Não tocam? Não sabia, não.
sm: É, cara. Leci Brandão e Fundo de Quintal, por exemplo, tocam mais em São Paulo do que no Rio, porque é um samba da década de 80, que não é da Lapa.
GB: É, no Rio existe uma coisa muito sazonal, de moda. A Lapa tá bombando, agora, e aí tem um monte de banda surgindo, sabe? Mas talvez essa galera surgindo na Lapa, e a galera que tá à frente disso não esteja ligado no Fundo de Quintal, mas talvez esteja, como teve uma época, no Forroçacana e nessa galera…
MC: Mas eu acho legal também, cara…
GB: Cara, mas não é impossível furar o bloqueio, acho que nunca é impossível. A Orquestra Imperial, de certa forma, furou um bloqueio. Tinha gente conhecida ali, tinha o Ruivo [Rodrigo Amarante] do Los Hermanos, a Thalma de Freitas da Rede Globo, o Moreno [Veloso], o Seu Jorge. Eu acho que tinha uma galera que tinha um approach, e nêgo investiu muito ali. Eu me lembro que nas duas primeiras temporadas da Orquestra Imperial, nêgo não tirou quase grana nenhuma. Foi só investir. A gente investiu no Studio SP, passou um ano investindo, nunca tirou grana, tirou grana que pagava estúdio, passagem e olhe lá.
MC: Mas vai tirar ainda, tá chegando o dia.
GB: Pois é, então eu acho que tem uma hora de investir, todos os lugares têm isso. O que eu sinto é que em São Paulo tem um pouco mais de abertura, e tem mais grana.
MC: Mais grana, mais lugar…
GB: Mas o Rio é um lugar que a gente quer, que a gente pretende esse ano investir num lugar também. Porque é importante fazer público, também.