É mais um domingo de ska, na Lapa carioca, e a casa começa a encher. Assim como o dub começou a virar cena – e moda – há uns cinco anos, em datas que supostamente repelem público, começa a se desenhar a vez de outro filho sonoro jamaicano. A partir da organização de um pequeno grupo de músicos e djs, e de iniciativas ligadas a produtores afins em São Paulo e outras capitais, uma série de festas e shows de peso começou um lento (no sentido de não-imediato) processo de formação de público que já tem resultados visíveis.
       A segunda passagem do Slackers pelo Rio, portanto, tem um peso maior do que simplesmente o de inserir a cidade no circuito de ska da América Latina. (Aliás, nunca é pouco lembrar que o Skatalites fizeram show-extra em São Paulo, mas por aqui nada.) Naquela ocasião, há mais de dois anos, divulgar um show do Slackers era também contar toda a história do ska da década de 60 pra cá, e ter que explicar que tem a ver com reggae, com soul, com jazz. Naquela época, para falar de Slackers era importante usar justamente o disco deles de versões dub, pra meio que pegar o público emprestado. E, principalmente, daquela vez, o público que encarou chuva e a concorrência de um Fla x Flu era de curiosos a fim de ver aqueles caras com roupa de mafiosos que apareceram no Jornal da Globo de sexta. Pouca gente conhecia, de fato, o universo pós-two tone da parada.
       No domingo, a situação era bem outra. De igual, só ser domingo. O Firebug, de São Paulo, tinha a participação do baixista do Dub Side of the Moon Victor Rice, e abriu a noite. O som é bom, mas fica um pouco repetitivo. Teria rendido mais se encurtado, mesmo que com a participação de B Negão e do guitarrista do Slackers, Agent Jay Nugent.
       O Coquetel Acapulco, mesmo estreando nova formação, diferente três integrantes daquela de antes, veio logo antes da banda principal. E mostrou que hoje, tem currículo para tanto. Com uma só vocalista, pela primeira vez, a banda indica que deve pender mais para um clima de boate enfumaçada do que para o de festa de música jamaicana. Pela reação do público, que nem notou um ou outro desacerto de todas as mudanças que precisaram ser acertadas a tempo do show, o caminho vai bem. A cover de Just Friends, de Amy Winehouse, pode ter sido a senha do que vem por aí.
       E o Slackers… Certamente mais rock no lançamento de Self-Medication (só importado ou na Internet para bom procurador), com a guitarra mais presente em ataques e solos distorcidos, a banda de Nova Iorque se valeu do entrosamento do público com o repertório deles para relaxar e fazer mais som do que festinha. O careteiro Glen Pine, vocalista e trombonista, ainda esbanjou o português safado de luso-descendente para se aproximar da galera, mas estava muito tranqüilo quanto a tocar para mais conhecedores do que os poucos das primeiras fileiras da primeira passagem deles por aqui.
       A banda ainda contou com um detalhe que faz muita diferença. Vic Ruggiero, o também vocalista que toca teclado como se fosse um percussionista em Trench Town, veio com o próprio instrumento. Sem precisar pedir emprestado, a vaibe flui mais solta, além de com o timbre certo para cada música – ou frase de música.
       De novo, a banda mandou a versão em português de gringo para Minha Menina, botou B Negão para improvisar carisma sobre a política Propaganda (do disco Peculiar) e recebeu uma sutiãzada de uma moça a partir de então mais soltinha. Sorrisos se abriram no rosto de todos, inclusive no de Ruggiero – que ainda decidiu atender a pedidos no bis antes de mandar uma óbvia Crazy antes de mais duas ou três berradas pelos cariocas.


       Para os do ska, novos ou veteranos, tem festinha Jamrockers 2 (ska, dub, etc.) no Espaço Multifoco, Mem de Sá 126, sábado dia 6, e Bangarang (só ska) no sábado seguinte, 13, na Brasil-Mestiço, Mem de Sá 59. Essas não são domingo, mas se fossem não tinha problema.