A guitarra seca de cordas puxadas entra em cena, e chama a bateria reta. E então, assim, vem o desafio cheio de despeito e razão: “te convidei para dançar o samba comigo/ você não quis nem saber de mim/ se você soubesse sambar assim/ saberia que com o samba só se fica feliz”. Ora, que samba? Ora, feliz?
       Mas deixe de pergunta antipática, vai. O Companhia Itinerante é uma banda sem tempo pra isso: cinco cabeças abaixo dos vinte e cinco anos, com quase dez tocando juntos (com o prosaico nome de banda Querubim Bar, homenageada no refrão de outra música do disco), e referências na graça de um Secos e Molhados, de um Mutantes ou de um Barão lá dos tempos de Cazuza recém-saído. E muito dedilhado de guitarra.
       A idade dos integrantes, neste caso, importa e muito para a resposta da pergunta lá do primeiro parágrafo. Nascidos no meio da década de 80, junto com o Barão pós-Cazuza, portanto, eles se acostumaram ao samba com a pergunta de Marcelo Camelo a Paulo César Pinheiro: “quem se atreve a me dizer do que é feito o samba?” São de uma geração em que a crise do carnaval carioca de rua até foi vivida, mas na infância. Na adolescência, cresceram com os antigos e novos blocos de rua, eventualmente tentaram formar um próprio em volta da mesa do boteco onde se reencontravam antes da pelada, ou do ensaio. Foram no sábado à noite aos ensaios abertos da Mangueira, aprenderam a Lapa como um lugar de Chicos Buarque, Zé Kettis, Noel Rosas e Cartolas, e não de Madames Satãs ou Circo Voador de lona.
       Assim, para os meninos do Companhia Itinerante, os primeiros contatos com o samba foram entre fãs de Los Hermanos de olhinhos fechados pra dançar. Foram de invenção de um Rio antigo na quadra amistosa do morro x asfalto, ou atrás da bateria desorganizada que evolui entre foliões aprendendo marchinhas de bem antes da Internet e dos mp3.
       Para eles, entender o samba é tratá-lo mais como postura do que como batida, mais como um ideal de liberdade sem culpa do que como um ritual místico e religioso. Tem a ver com identidade, mas de uma forma escolar – aprender, repetir e testar na prova. No verso que abre Samba do S, o que o vocalista e compositor Caio canta é uma nova versão de Eu Sou o Samba, sim senhor. Com os mesmos ésses, mas quarenta anos depois. Caio troca a afirmação do nobre excluído pela da cantada assobiada no ouvido de um não-sabe-o-que-tá-perdendo-gata. Sai social, sobe suspeita de sexo.
       A música quer mostrar que o samba funciona melhor a dois, que depende de despretensão e de falta de pose, mas marca posição sobre o cara que conhece mais de samba, o que freqüenta mais sambas, o que se aproxima mais do que se acha ser o bom e velho malandro de chapéu de palha… do samba.
       É, assim como todo o disco, um clima de moleque que surpreende com uma ou outra tirada de gente grande. E é, também, uma divertida reapropriação da palavra que nenhum brasileiro aprende no dicionário. O samba, sem necessidade de defesa que não pediu, vai que vai sendo só uma idéia distinta para cada cabeça, idéia essa que garante autoridade a quem a invoca e se bate no peito mais brasileiro.
       É assim, agora: com o samba, só se fica feliz.