Quando Caetano falou  (ao que li, ele fazia referência a uma declaração anterior de Lobão), durante seu show na semana passada, sobre o importúnio que é a corja de pessoas credenciadas como “V.I.P” nos eventos artísticos, sobretudo na zona sul carioca, um certo constrangimento coletivo se fez. Jornais repercutiram isso (como repercutem qualquer coisa genial ou débil que Caetano fale), o papo rolou em mesas de bar e até outros artistas resolveram engrossar o coro. Agora, vem cá… Vamos falar a verdade? Esse buraco é bem mais embaixo.

Quantas pessoas “normais”, não-VIPs, conseguiram assistir ao show histórico que o próprio Caetano fez com Roberto Carlos no Teatro Municipal, dois dias depois? Bem, as notas nas colunas sociais (principal repercussão que um evento no Rio de Janeiro pode ter, pois afaga os egos dos patrocinadores) davam conta de um bate-boca, no meio do salão, entre Paula Lavigne, a empresária (e ex-mulher) de Caetano, com Carla Camurati, a diretora do Teatro, justamente pela distribuição dos convidados (V.I.Ps) de cada uma delas. Leia-se que os convidados de Paula, são os VIPs de Caetano.

Os shows cariocas da série Itaú Brasil, que está levando aos palcos de Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador o encontro de Caetano e Roberto, além da apresentação de João Gilberto, tiveram contornos de um certo cinismo aristocrático. Junta a influência inevitável dos mais ricos com o deslumbramento de uma classe-média burguesa carioca que flerta com o verniz do status. Um evento que pouco espaço ofereceu ao público que não fosse aqueles tais vips do Caetano. Poucos conseguiram comprar seus ingressos mal-localizados depois de vencerem filas que vararam madrugadas nas ruas do centro da cidade. Ao contrário destes, aqueles que garantem as fotos na coluna social e o próximo patrocínio-nosso-de-cada-dia diziam apenas coisas do tipo: “se ninguém me arrumar ingresso, eu vou deitar na porta do teatro!”.

Os cadernos de cultura falam do reencontro de João Gilberto, por exemplo, com o Rio. Mas o Rio passou ao largo, o show de João não foi assunto fora das redações que estavam convidadas para descrever à cidade, aquilo que o teatro escondeu dela.

Isso me leva a pensar em outro aspecto da relação público-artista nesses tempos, pelo menos sob o viés da zona sul carioca “formadora de opinião” na qual eu passeio. A cada vez que em que vemos que a maior preocupação de um show são os convidados, maior fica a distância daquela arte oferecida com o público. A área vip, como diz Caetano, quer mais é saber de beber o uísque no camarim, posando para o fotógrafo contratado. A ode às áreas-vip, que tomam conta de grande parte da cobertura dos eventos na mídia da cidade, tornam o artista parte de uma casta da qual “meros mortais” estão distantes. Quando o próprio Caetano, nos idos de 70, representava supostamente um ideal comum ao das pessoas “normais” que freqüentavam suas apresentações, seus discos também eram mais discutidos. Outro dia, um amigo observava como é descomunal a diferença de espaços cedidos às citações de coluna-social envolvendo o que Caetano diz fora de sua música e o que ele diz, de fato, com sua obra. O que é a arte de Caetano hoje? Ninguém quer falar disso? Não sei bem se uma coisa tem a ver com a outra, mas cogito que talvez sim. A arte nessa era do “show business-big-brother”, mais do que nunca, é um escape de um entretenimento estéril. Muito além do juízo de valor sobre a função da arte, vem o meu questionamento, sim, com o que a obra de um caetano se propôs a ser durante 40 anos. Nunca a vi como esse mero entretenimento estéril. E na minha cabeça, tudo isso fica um pouco anacrônico. Torto.

E aí a cabeça não pára, né… A divagação segue… 

Quando você se dá conta do imenso mecenato de marketing que virou o investimento cultural nesse país, tudo se complementa. A única política cultural efetiva que vemos há quinze anos são os mecanismos de renúncias fiscais que afagam os artistas e as grandes empresas. Estas, por sua vez, acabam fazendo as vezes de pequenos ministérios da cultura, sendo que, nesses ministérios, a única meta é o tal do “ativamento da marca”. Não há nenhuma (ou quase nenhuma) responsabilidade com o fim ou a relevância artística daquilo em que se investe, como bem frisou Fernando Meirelles em entrevista à Rolling Stone de agosto. Não há tampouco uma preocupação com a real “contrapartida social” de um projeto. O que paga um projeto cultural hoje é a mídia que ele consegue. E aí, meus caros, dá-lhe área vip.

Os ViPs do Caetano são os vips do Caetano. Ou, pelo menos, grande parte. E eu concordo com ele, de que essa gente é muito chata. Mas quem cria e alimenta o curral das áreas-vips também tá com a mão amarela nessa história.