Uma das principais mudanças de hábito, pós-revolução digital, que se viu naqueles que vivem mais intensamente a relação com a música, passa além da velha discussão sobre baixar-de-graça ou pagar-pra-ter e se concentra no processo da obra. Nessa “nova era”, não é a arte gráfica, a capa, o encarte do disco vindouro, quiçá nem o nome, que suscitam a imaginação. Chegou-se a achar - eu entre estes - que os websites dos artistas tomariam tal papel, mas cada vez mais, eles são apenas um portal de redirecionamento para os profiles nas diversas comunidades. Quando se nota que a discussão em torno de “qual vai ser a estratégia de lançamento o próximo disco do XYWZ?” bomba nos blogs ou quando lê-se que um DVD sem um “making-of” é considerado “pobre”, nota-se a demanda desenfreada pelo tal processo. Sabe aquele papo de que “o melhor da festa é esperar por ela”, ou que “o viajar já é mais que a viagem”? Então, é isso, misturado com um pouco de voyeurismo.

Caetano Veloso anda dizendo por aí que está em uma temporada no Rio de Janeiro de preparação para o seu próximo trabalho. Mentira, papinho, isca. Esse já é o seu próximo trabalho. O clima de making-of que se vê na apresentação do cantor é o grande atrativo. Um “making of ao vivo”, real time. O produto final disso tudo pouco importa. Será que vai ter produto final? E se tiver, esse produto será o ‘making of ao quadrado’, o making of do making of. Não dá pra ser mais moderno do que isso.

Caetano discorre sobre política, sobre o jogador e seus travecos, comunica o placar do jogo, e toca. A casa de shows é um grande salão. E não venham dizer que o Caetano está falando muito, está sendo evasivo, ou que começa um assunto e não o encerra, em meio a seus devaneios. Por favor, não. É justamente esse o barato da história. O que mais estimula o público nesse espetáculo é estar na sala da casa conversando sobre Obama e Hillary com Caê. Deixa ele falar, deixa ele se perder, não peça pra ele se encontrar.

Quem não foi ver ainda, pode acompanhar os resumos de cada capítulo dessa novela nos dias seguintes, pelos jornais. Afinal, tudo que Caetano fala vira pauta, vira assunto, vira bafafá, vira novidade, vira até tendência. Para potencializar essa história toda, foi criado o site Obra em Progresso, para que se possa acompanhar tudo bem de perto e rápido em qualquer lugar do planeta. Na verdade não é um site, é um blog. Lógico.

Este blog já é uma versão beta (que, claro, nunca vira alfa) do “making-of do making-of da obra”. É a própria continuidade da obra, uma parte intrínsseca da mesma. Nele, Caetano já explicou suas intenções, justificou a presença de Teresa Cristina no show que viria, disse que pensa em gravar uma “antologia da axé music”, enquanto faz o show de rock e pensa no transsamba. No texto de apresentação do projeto, Hermano Vianna fala muito bem disso, cita uma entrevista de Brian Eno para a Wired (que também fala desse mesmo papo) e diz que Caetano não pensou em nada disso pra fazer o que está fazendo. Ele só queria passar mais tempo no Rio.

E isso de desmascarar as supostas mil-e-uma intenções de um artista durante o ato de criar é um dos maiores baratos dessa história toda. E da história toda. Loading, loading, loading…