Vitor tem um quê de Marcelo Camelo no falar – apesar de falar bem mais do que o hermano. Ele é dessa geração que aprendeu a falar com naturalidade de arte como uma manifestação do risível, do cotidiano, das relações mais e menos importantes da vida de cada um, negando (talvez para reafirmar) a distância entre o artista e seu público. Ele gosta de se levantar, sair do piano, vir à frente do palco e conversar com a platéia. Propõe uma espontaneidade, um relacionamento direto “com os corações de cada um”, atribui sensações táteis aos sons que tira, diz que todos ali são parte do evento, que os celulares que tocarem são parte do todo e não os condena. Os silêncios que ele faz são um pouco para isso, pra você ouvir o ruído da platéia, influencia clara de John Cage. Essa aliás é uma das marcas que aparece também no trabalho de Marcelo Campello, do Mombojó, outro que adveio da formação acadêmica pernambucana recente. De Cage, ele chega a Tom Zé. TOC é tirada do genial “Estudando o samba” e batiza o trabalho de Vitor. Além dos ruídos da platéia, a mão escorrendo pelas cordas dentro do corpo do piano, as batidas na madeira completam a performance e a linha sucessória da música do acaso.
Essa contradição sobre o que seja a função e o papel da música aparece quando ele apresenta “Asa Branca” como uma das músicas mais bonitas já feitas em todos os tempos, mesmo tendo apenas cinco notas. Contraditoriamente, ele opta por um arranjo denso, cheio de variações de alturas e de notas, para a música que apresentara como um exemplo do valor que a simplicidade tem. Vitor tem um olhar enviesado, de baixo pra cima, de quem quer desafiar que lhe encara, transbordando confiança. Lá pelas tantas, depois de vários discursos transbordando de referências lúdicas e idílicas, ele se aproxima do chão novamente. “Eu tento provar muita coisa, não sei se consigo”. Assume a pretensão que é a mola da sua criação e aí se torna, sim, mais real como ele queria. Instigante, provocativo e encantador. Foi numa dessas que teve sua versão para o tema do Frevo, do maestro Marlos Nobre, proibida pelo próprio, que chegou a chamar Vitor de criminoso publicamente, por conta do arranjo do garoto para sua obra.
Segundo Vitor, o rock foi a maior influência de sua vida e Radiohead agradaria a Chopin e Mozart, se eles tivessem tido tempo de conhecer. É isso que traz “Paranoid Android” para o repertório. Além de parte da sua musicalidade, o rock lhe deu a performance, o quê de rebeldia. O carisma e talento de Vitor vem envolvido por doces camadas de hype. Todas as iscas para os jornalistas morderem estão lá. Grande parte deles – e do público que segue os estandartes azuis, dos quais Camelo já falou - está na mão desse garoto de 18 anos que não optou pelo gênero da moda. As contradições que ele traz são pratos cheios de clichês: o allstar, a calça jeans, o rock, o Teatro Santa Isabel, o Villa-Lobos, o Radiohead, o frevo, o baião, o Recife, a idade, o virtuosismo, o discurso… linhas e mais linhas que ele oferece pra te atingir. Mas esse recheio doce é só o recheio, o que tem por dentro é ainda melhor e mais complexo.
Veja, ouça e sinta tudo isso com calma que vale a pena. Agora é a hora de você ir para o CD.
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