Considerações Finais: So What’cha Want?


      Hora da sessão de análise. O Festival foi bom, mas abaixo dos últimos anos. Para começar, que me perdoe o resto do mundo, mas o MAM é melhor que a Marina da Glória. Não achei ninguém que concordasse comigo, e tentei. É que a minha teimosia é uma arma, pra te conquistar, leitor. Leitor… O MAM fica mais perto da passarela, mais perto da Cinelândia, mais perto do estacionamento do aeroporto, de acesso bem mais fácil. Não sei como funcionou o esquema de vans para quem resolveu deixar o carro em qualquer desses pontos, ouvi críticas e elogios. Mas para quem ia de ônibus ou de taxi, e imagino que teve quem fosse a pé; e ainda mais para quem voltava de taxi ou de ônibus, ou a pé, não deu certo.
      Agora isso é o de menos. Mais importante é que o Village do MAM é muito mais legal do que o de agora. O espaço para se dar um tempo antes do show começar, de circular, ou de encerrar a noite no clima de encontros e desencontros aleatórios da vida 2.0 funcionava mais nos anos anteriores, mais concentrado, sem cara de passagem. Não era apertado. A operadora preferir não se meter no lugar da concorrente é de se entender, e é legítimo. Mas todo mundo entrar na onda, não entendo. Na Marina, ou se ficava no pufe central, descoberto, ou se ficava no meio do corredor, onde tocava um dj. A energia toda daquele povo de um lado para o outro, parecendo highway. O Rio é de esquinas, pessoal. Antigamente eram mais opções, show surpresa, livraria, uma área livre mais agradável. E mais, o dj não parecia estar na praça de alimentação da galeria comercial do Centro da cidade.
      Quanto à cobertura da imprensa, não tive nada a reclamar. Como o sobremusica não conseguiu cobrir o evento, ficou só com os shows que achou imperdíveis, a curiosidade obrigou a acompanhar a tudo pela internet. E francamente, tanto o Urbe, quanto o g1 e o Globo On foram bem. Cada um tem um tamanho e um papel na sociedade, e cada um cumpriu bem com isso.

      Mas, na real, tudo isso é detalhe. Não é o que faz o festival. Aí sim, faltou uma atração de peso para o sábado, o YYY é banda de abertura, não é para fechar um palco principal. Fez um bom show, pelo que ouvi, mas não esgotou ingressos. O Lab também já teve atrações melhores. Kings of Convenience, Cake, Arcade Fire, Wado, Wilco, Mars Volta, Cinematic Orchestra, Panjabi MC, Bebel Gilberto e Libertines têm todos mais apelo do que Bad Plus, Thievery Corporation (esse empata com o Morcheeba, na verdade), Marcelo Birck e Céu - só para citar os que eu gostaria muito de ter visto. E mais, o fato de nenhum show passar de uma hora e meia é no mínimo um absurdo. Para quem já viu o Otto brigando para ficar em um evento anterior versão Project e o Public Enemy se recusando a deixar o palco, fora o Branford Marsalis fazendo um dos maiores bis da vida, em São Paulo, não dá muito para admitir, né? Alguém tirou da tomada os andróides do Kraftwerk? Não que eu me lembre.
      De qualquer forma, é um dos eventos mais esperados do ano, e satisfação garantida. A propósito, o milagre dos seguranças bem-educados é de se louvar.

      Agora, o negócio mesmo, é o seguinte: Beastie Boys. Era o show da minha adolescência. Uma banda que tem um disco perfeito muito diferente do outro. Tem o mais puro rap roqueiro juvenil, em uma releitura instantânea do clássico do mesmo ano ‘Raising Hell’, Run DMC. Tem o Sargent Peppers da década de 90, via samples e colagens doidas. Tem a volta à old skool. Tem o hard core funk metal cheio de suingue. O rap do futuro, o rap cidadão do mundo. Beastie Boys é muitos. Qual deles viria ao Brasil? Todos? Não dava pra saber. Veio o da velha escola, três mcs e um dj. Um show para fã, que soubesse reconhecer a música sem necessariamente todos os elementos, principalmente sem Money Mark, o tecladista super herói ao lado de Mix Master Mike. Nem todo mundo sabia as letras, muitos não conheciam as músicas, pulavam no começo e paravam. Quer dizer, o publico estava muito a fim de estar ali, muitos pegaram a ponte aérea para isso (ou vieram de ônibus, vá lá), mas talvez não estivesse pronto para um show cru. Só de essência.
      O que segurou as pontas foi a cumplicidade entre o carisma de Ad Rock, MCA e Mike D, e o clima de um show à beira mar no Rio de Janeiro. A gente é foda. Enquanto um dj de oito braços manipulava sons, texturas, scratches, pitches, e muita malandragem – o dj Dolores falou em playback, como sempre alguém fala – os três mosqueteiros denunciavam: instrumentos são legais, mas vocês não estão se divertindo só com isso? Mal comparando foi que nem o Acústico do Nirvana, que revelou que havia mais do que distorção na ponta de lança do grunge. Melodia, sentimento, voz das ruas, idéias, tudo isso tem que estar nos grandes artistas, mesmo que o formato seja o mais simples.
      E olha só, quando veio o set com instrumentos, quatro ou cinco músicas – quem é que tem tanta memória assim? – o jogo já estava ganho. É lógico que o disco Ill Communication tinha que ter uma guitarra de seis cordas mesmo, de verdade, ali. E foi isso, músicas desse e de Licensed to Ill que se viram no meio das desculpas (“It’s the sponsors”) por não estar tocando mais. Uma hora e quase meia de show? Pouquíssimo. Mas passou como a eternidade de quem tem histórias de vida de memória – e nessa hora é, sim, um tanto assim. Que venham outras vezes, tomar sucos de abacáxi (tem gente que ouviu abacate) e de tandjerinea. Da próxima vez, a galera do Leblon há de ser tão receptiva quanto foi Mario Ci, aquele que em português se diz Mario Caldato.

      Ah, e só para não deixar passar em branco: no show mínimo do Daft Punk, quando deu para perceber que tinha acabado mesmo, formou-se uma multidãozinha para gastar os tíquetes de cerveja que não podiam ser usados lá fora. Tinha gente com mais de um para usar. E sabe o que aconteceu? Um cordão de seguranças educados se deu as mãos e foi varrendo o povo para fora. Em outros festivais, algo parecido tinha acontecido, mas sem que o show tivesse sido tão rápido, e porque o palco seria usado de novo para o show dos djs que sempre fechou a noite.